domingo, 9 de agosto de 2026

Apontamentos


1. 

Em que língua falarei eu de Poesia? Azul-celeste, antracite, cor de morango, de limão? Ouvi dizer que a Poesia fala todas as línguas do coração. Silêncio, por favor. Escuto o coração. Só um ritmo cadenciado, sem letra, me chega. Uma melodia repetida como água a correr: a mesma água de sempre, o mesmo leito, a mesma língua.

Por vezes, de um velho barco nas margens anónimas dessa água que corre, parece-me vislumbrar, entre a névoa da manhã, códigos de uma outra língua que desconheço. Por vezes, um velho barco de viagens antigas, longínquas.  Por vezes, um veleiro em mar aberto, desenhando formas incolores no horizonte. Por vezes, água apenas, desafiando os ventos. Por vezes, tantas vezes, sede.

Dir-me-ão irmã do fingimento, do inexpressível, do intocável. Talvez. Mas nunca do engano. A viagem faz-se sobre as vagas inconstantes da imaginação e assim vivo o poema que vou desdobrando, desbravando, espiando, revelando, dizendo sem afirmar, propondo sem audácias de injunção. Enganar, não! É antes alvitrar o caminho do Sonho, esperando que o leitor encontre em suas gavetas interiores, uma chave só sua que o abra.

 

2.

A Poesia não é aquela amiga passiva, íntima sempre disponível para acolher embaraços e desabafos. Não, não tentem reduzi-la à gelosia de um confessionário. Seria um erro grosseiro. Ela não tem afinidades com o fácil. É quase sempre esquiva, no instante em que a desejamos. Quantas vezes toco ligeiramente a aba do seu vestido de anémonas e madrepérola e a vejo derramar-se subitamente, como um castelo de areia, nos subúrbios das marés, negando-me a exaltação do mistério, a surpresa, a maravilha. As palavras  que prometiam claridade e pacificação, perdem, forma e consistência e retiram-se sem cerimónia, deixando atrás de si um rastro de letras imperfeitas que, ao atrasarem-se, tornam possível a sua captura, por nossas mãos amistosas. Damos-lhes colo, então, acarinhámo-las, adotámo-las antes que a ligeireza do habitualismo venha varrer o que restou da epifania.


Lídia Borges (12/006/2026)