quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Têm a forma e o perfume de flores

Christian Schloe



Têm a forma e o perfume de flores
as primeiras palavras entornadas hoje
na neve do papel.

Devo tê-las trazido de um sonho,
de um poema ou de uma réstia do  riso
de uma criança antiga.

Devo tê-las trazido de longe
porque não chegou ainda ao quintal
sequer um débil sopro de primavera.

Só os pés pesados e frios da chuva
pisam lá fora o canto tímido de um pássaro.
Hei de dizer que era o azul do canto de um chapim
a rondar a nudez da macieira, agora mesmo.

Não me recordo de o ter visto voar
do beiral do sonho para um ramo do poema
e não quero acrescentar nada ao olhar.

Hei de dizer que era real o canto
que derreteu a neve na folha de papel
e lhe entornou palavras

com a forma e o perfume das flores.


Lídia Borges (reeditado)