Christian
Schloe
Têm a forma e o perfume de
flores
as primeiras palavras
entornadas hoje
na neve do papel.
Devo tê-las trazido de um
sonho,
de um poema ou de uma réstia
do riso
de uma criança antiga.
Devo tê-las trazido de longe
porque não chegou ainda ao quintal
sequer um débil sopro de
primavera.
Só os pés pesados e frios da
chuva
pisam lá fora o canto
tímido de um pássaro.
Hei de dizer que era o azul
do canto de um chapim
a rondar a nudez da macieira,
agora mesmo.
Não me recordo de o ter
visto voar
do beiral do sonho para um
ramo do poema
e não quero acrescentar nada
ao olhar.
Hei de dizer que era real o
canto
que derreteu a neve na
folha de papel
e lhe entornou palavras
com a forma e o perfume das
flores.
Lídia Borges (reeditado)
