O verão esmorece entre festivais, desgraças, modas de biquínis e burquínis, bocejos e o barulho de tantas opiniões contraditórias alicerçadas em argumentos mais ou menos contaminados pela poluição da atmosfera circundante. Eu, que opto por talhar as minhas opiniões, reservando-as a quem mas pede, vou lendo ainda os jornais e assistindo a noticiários que me deixam a moer incredulidades entre um resmoneio e um lápis sem préstimo que ciranda numa qualquer folha de papel.
Mas ao domingo “não estou cá”, normalmente. Aproveitam os "meus" para descansar e eu ponho-me a espicaçar os descansos num livro, num filme, numa peça musical ou a manusear tintas, telas e pincéis…
Calhou, hoje, acompanhar Zenão na viagem que o leva através das páginas de A Obra ao Negro e dou comigo a bajular literalmente Margarite Yourcenar, a autora belga de língua francesa, primeira mulher eleita para a Academia Francesa de Letras. (1980)
A "Obra ao Negro" (expressão que designa a fórmula alquimista relativa "à fase de separação e dissolução da substância")* situa-nos nos tempos conturbados entre a Idade Média e o Renascimento, numa daquelas épocas decisivas em que os homens parece hesitarem entre o passado de que lentamente se desligam e o futuro, simultaneamente fascinante e assustador que os lança na angústia do desconhecido. As mais firmes certezas vacilam e o mundo todo, em gestação, espera… Sem saber o que o espera.
Lembremos que a alquimia pode ser entendida, não apenas como um processo “químico embrionário”, mas como uma predisposição do humano para se estender a outras culturas. Se encararmos, conforme Goethe, a alquimia como uma operação simbólica, vemos que não era o ouro, objetivamente, a fonte de riqueza do alquimista/poeta. O progresso das suas experiências dependia do seu valor enquanto ser humano, o mérito das suas próprias exigências morais e espirituais.
Neste romance, Yourcenar coloca numa só personagem - Zenão - o homem solitário e o homem empenhado. Só, e no entanto ligado a tudo. Assiste-se ao difícil diálogo do universal e do individual, do conflito inexpugnável(?) entre o serviço aos homens e a busca da felicidade pessoal.
Diz a certa altura Zenão: "Todo o ser que viveu a aventura humana, é eu".
Jean d'Ormesson conclui o discurso da entrada da escritora na Academia Francesa de Letras, reforçando esta ideia ao afirmar: «Margarite Yourcenar introduz na liberdade do indivíduo todas as exigências do universal.»
Não admira que alguém com esta humanidade no ver e no ser nos encante, subjugue, até. Como já outros disseram “Yourcenar não necessita de biografia. A sua biografia é a sua obra". E o encantamento que dela irradia é ainda maior se comparado com a irracionalidade que atinge os nossos dias, esta sociedade de consumo dirigida por interesses meramente mercantis em que o homem desaparece diluído constantemente numa qualquer operação “alquimista” que o transforma e contamina, como quem reduz o ouro a nada.
* De acordo com Carl G. Jung, uma das quatro fases da obra alquímica.


3 comentários:
Ah, tivesse eu domingos...
ou interregnos para coisas necessárias
que estas minhas ocupações
são tão preenchidas de utopias e ilusões
Tivesse eu domingos...
Lídia, vou reler a "Obra ao Negro" que já li faz tempo. Acabei de reler há poucos dias "Memórias de Adriano". São livros que a maturidade ajuda a entender melhor. Yourcenar é uma escritora maravilhosa.
Uma boa semana.
Um beijo, minha Amiga.
Embrenhei-me em "A Obra ao Negro" nos meus verdes anos, após sair das "Memórias de Adriano", e constatei que ainda não tinha fôlego suficiente para apreender a mensagem. Regressei há dois anos atrás, após encontrar o silêncio necessário, e viajei com Zenão na constatação da nossa limitação, alicerçada na vontade de descobrir, de fazer, de transformar...
É uma obra e pêras!
Um beijinho, Lídia :)
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