sexta-feira, 9 de setembro de 2016

À conversa com... (Manuel Bandeira)





Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezasseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, […], saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!
Manuel Bandeira





 Também quero ir

Vou-me embora pra Pasárgada
fartei-me de estar aqui
vou sem malas aviadas
e nem espero por ti.
vou-me embora pra Pasárgada
antes que me impeça um muro
nesta província aviltada
que nos trama o futuro.
vou-me embora pra Pasárgada
aqui não estou feliz
não se abre a madrugada
ao sol do meu país.
na Pasárgada é que estou bem
é outra coisa é outra a lei

ter por amigo um rei
escolher a mesa, a cama
o que de melhor existe
e quando estiver triste
“mas triste de não ter jeito”
no peito uma dor que clama...
 - lá sou amigo do rei –
o paraíso me chama.
 
não me travem não me impeçam
que aqui não fico mais
vou-me embora pra Pasárgada
desta mundana morada
de meus males de meus ais.
 
vou-me embora p'ra Pasárgada
e não volto nunca mais.

Lídia Borges


(Imagem - Todd Williams)


3 comentários:

Primeira Pessoa disse...

pasárgada é um pedaço do minho, um vilarejo em xangrilá.

abraço fraterno

roberto.

Graça Sampaio disse...

«antes que me impeça um muro»...muito atual, infelizmente.

Manuel Bandeira - que poesia bonita...

Beijinho.

Rogério G.V. Pereira disse...

Depois
do que dissemos os dois
creio nos ventos
sul ou norte
irei, seja esse destino onde for
só não garanto que não volte