segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Antes o escuro


Apaguem essas falsas estrelas. Deixem-me ficar às escuras, no espaço negro entre elas. Às escuras, ouviram? Antes às escuras. Já do néon me desobrigo…

Desmontem o ecrã, destruam as bobines, a banda magnética, a máquina de projetar…Não vos inquieta que toda esta gente se debata por um palmo de chão seguro para pôr os pés?  Não vos incomoda essa distribuição gratuita de logros, tala única, (pague um leve dois), todos dobrados do mesmo modo, para o mesmo lado que é o lado da mentira. Não vos inquieta que tão repetidamente sejam vazios os sonhos? Vazios como coloridos baldes de plástico vazios. Imagens tristes de tão alegres, vendidas a retalho, porta a porta, imagens iludentes a que todos os dias estamos expostos e não sabemos como fazer para não tropeçar nelas, a cada passo. 
Menos expostos, só possuindo a coragem de habitar um espaço físico, onde os nossos sonhos, os sonhos de fabrico próprio, sejam apenas os nossos sonhos e não a terrível ousadia de recusarmos os sonhos alheios. De aceitarmos como nossos, os vossos sonhos. Não, não sois amáveis amanha/dores de terras, sois semeadores de minas, de desertos, de uma paz que apodrece a cada hora que passa. Observo-vos com uma infinita  piedade e no entanto, não falo. 
      Tenho os olhos febris, doridos de tantas fábulas, acusações, contradições, malabarismos, alegorias construídas sobre pilares balofos de bem-dizer, bem-parecer e, (admirem-se) bem-querer.  Padeço de excesso de realidade, (quem diria?). E isso enche-me de fome e de sede do esplendor de um olhar limpo sobre as coisas. Como limpar os olhos das imagens que nos dais?
        Apaguem essas estrelas. Melhor o escuro...
      Esta terra que se me encosta ao peito está tão fria, tão órfã de flores.




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