domingo, 30 de outubro de 2016

Ao domingo



Ben Goosens

         Abrem-se e fecham-se portas, a gemer por todos os lados, em labirínticos crepúsculos  e as coisas que eram ainda ontem inanimadas, acusam, hoje, o seu estado de permanente e ansiosa metamorfose. A finitude é uma piton que rasteja pelas artérias da casa e da alma, à procura do que morder…
Não sei se por esse motivo ou por outro qualquer, à margem do tangível, ao domingo, é mais fácil descer a escada (ia dizer, subir) até à infância. Recostar a cabeça em seu colo, aconchego maternal, e depositar nela todo o saber de um fruto que amadureceu o bastante para a colheita. Descer (ou subir) a esse lugar, no fim da estrada (ia dizer, princípio), de onde Rilke gritou para ver se alguém, na «hierarquia dos anjos», o ouviria.

Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia
Dos anjos? E mesmo que um deles me apertasse,
De repente, ao seu coração: eu padeceria perante sua
Existência mais forte. Pois o Belo nada mais é
Do que o começo do Terrível que ainda suportamos
E o admiramos porque, sereno, desdenha
Destruir-nos. Todo anjo é terrível.


[…]

Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno, Elegia I (Traduzida por Karlos Rischbieter)

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