Ben Goosens
Abrem-se e fecham-se portas, a gemer por todos os lados, em labirínticos crepúsculos e as coisas que eram ainda ontem inanimadas, acusam, hoje, o seu estado de permanente e ansiosa metamorfose. A finitude é uma piton que rasteja pelas artérias da casa e da alma, à procura do que morder…
Não sei se por esse motivo ou por outro
qualquer, à margem do tangível, ao domingo, é mais fácil descer a escada (ia
dizer, subir) até à infância. Recostar a cabeça em seu colo, aconchego
maternal, e depositar nela todo o saber de um fruto que amadureceu o bastante
para a colheita. Descer (ou subir) a esse lugar, no fim da estrada (ia dizer,
princípio), de onde Rilke gritou para ver se alguém, na «hierarquia dos anjos»,
o ouviria.
Dos anjos? E mesmo que um deles me apertasse,
De repente, ao seu coração: eu padeceria perante sua
Existência mais forte. Pois o Belo nada mais é
Do que o começo do Terrível que ainda suportamos
E o admiramos porque, sereno, desdenha
Destruir-nos. Todo anjo é terrível.
[…]
Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno, Elegia I (Traduzida por Karlos Rischbieter)

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