domingo, 30 de outubro de 2016

Braga revisitada

 
     O novo livro de Vergílio Alberto Vieira – “A cidade das fontes”- com fotografias de José Rocha, traz de volta uma cidade muito nossa, recuada no tempo, estrangeira para estrangeiros. Uma cidade fora dos flashs dos turistas e dos panfletos publicitários. Uma Braga revisitada, através de lugares da memória, lugares de uma urbe agora “invisível”, para usar o adjetivo de Francisco Duarte Mangas, autor da nota introdutória que me parece riquíssima do ponto de vista sociológico e histórico. É a parte final desta nota que transcrevo aqui:
 

 [...]
A cidade solar cresceu, arrancou as vinhas e alçou enormes prédios nos prados, fez-se subterrânea para atender ao capricho dos automóveis. É cidade como outras.
Regresso às origens. O primeiro desempregado que conheci, vivia do outro lado da rua. Trabalhava na Pachancho. A mulher desse operário triste, a Glorinha, passava o dia à janela. A rua das Palhotas confinava uma poética amarga e centelhas de alegria – sempre me senti bem no meio da pobre gente – da minha gente.

 Francisco Duarte Mangas

      De Vergílio Alberto Vieira, temos poemas (todos eles compostos por quintilhas, a lembrar, aqui e ali, Cesário Verde), com títulos que levam qualquer bracarense a arrebitar a orelha, no mínimo. Querem ver? “Sete fontes” – “S. Bentinho do Hospital” – “Campo da Vinha” – “A Brazileira” (com z, sim!) – “Rio Este” – “O Nosso Café” – “As Palhotas” - "Livraria Cruz"…


Foi bom passar a tarde a deambular por esta Braga que sinto, em mim, ainda bem viva. Do que não vi, guardei na memória a voz dos “meus” que contavam. Está tudo aqui, nesta “[A]cidade das fontes” com que o poeta VAV nos presenteia.




 











Livraria Cruz 

Dos tectos, enfim, retocados
Por mestres estucadores,
Caem lustres apagados
Que, pelas estantes, iluminados
Livros, em tempo, fundadores.

Da memória da cidade,
Ardem os olhos de quem
Ontem, com ansiedade,
Os procurou, que a eternidade,
É já ali, um pouco além.

Ao balcão, clientes de outrora
Aguardam a vez, circunspectos,
Em sinal de penhora
De quem paga pela demora
De terem sido dilectos.

Das obras que os acolheram,
Seus leitores de estimação,
Não tanto porque o mereceram
Mas porque tudo o que leram
Foi com o próprio coração.



Vergílio Alberto Vieira, (2016:p.11), A cidade das fontes





1 comentário:

Primeira Pessoa disse...

Quando retornei a Braga, julho último, falei em alto e bom som, dentro daquele carro alugado: "cheguei em casa".
Tenho vários ossos bracarenses em meu corpo.

Beijão

R.