O novo livro de Vergílio Alberto Vieira – “A cidade das fontes”- com fotografias de José Rocha, traz de volta uma cidade muito nossa, recuada no tempo, estrangeira para estrangeiros. Uma cidade fora dos flashs dos turistas e dos panfletos publicitários. Uma Braga revisitada, através de lugares da memória, lugares de uma urbe agora “invisível”, para usar o adjetivo de Francisco Duarte Mangas, autor da nota introdutória que me parece riquíssima do ponto de vista sociológico e histórico. É a parte final desta nota que transcrevo aqui:
[...]
A cidade solar cresceu, arrancou as vinhas e alçou enormes prédios nos prados, fez-se subterrânea para atender ao capricho dos automóveis. É cidade como outras.
Regresso às origens. O primeiro desempregado que conheci, vivia do outro lado da rua. Trabalhava na Pachancho. A mulher desse operário triste, a Glorinha, passava o dia à janela. A rua das Palhotas confinava uma poética amarga e centelhas de alegria – sempre me senti bem no meio da pobre gente – da minha gente.
Francisco Duarte Mangas
De Vergílio Alberto Vieira, temos poemas (todos eles compostos por quintilhas, a lembrar, aqui e ali, Cesário Verde), com títulos que levam qualquer bracarense a arrebitar a orelha, no mínimo. Querem ver? “Sete fontes” – “S. Bentinho do Hospital” – “Campo da Vinha” – “A Brazileira” (com z, sim!) – “Rio Este” – “O Nosso Café” – “As Palhotas” - "Livraria Cruz"…
Foi bom passar a tarde a deambular por esta Braga que sinto, em mim, ainda bem viva. Do que não vi, guardei na memória a voz dos “meus” que contavam. Está tudo aqui, nesta “[A]cidade das fontes” com que o poeta VAV nos presenteia.
Livraria
Cruz
Dos
tectos, enfim, retocados
Por
mestres estucadores,
Caem
lustres apagados
Que,
pelas estantes, iluminados
Livros,
em tempo, fundadores.
Da
memória da cidade,
Ardem
os olhos de quem
Ontem,
com ansiedade,
Os
procurou, que a eternidade,
É
já ali, um pouco além.
Ao
balcão, clientes de outrora
Aguardam
a vez, circunspectos,
Em
sinal de penhora
De
quem paga pela demora
De
terem sido dilectos.
Das
obras que os acolheram,
Seus
leitores de estimação,
Não
tanto porque o mereceram
Mas
porque tudo o que leram
Foi com o próprio
coração.
Vergílio
Alberto Vieira, (2016:p.11), A cidade das
fontes



1 comentário:
Quando retornei a Braga, julho último, falei em alto e bom som, dentro daquele carro alugado: "cheguei em casa".
Tenho vários ossos bracarenses em meu corpo.
Beijão
R.
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