Elas
Elas vieram devagar,
um braço que se alonga, outro,
uma mão de dedos finos, vegetais.
Abeiraram-se das janelas
abusivamente
[se um advérbio me é consentido].
Tão perto ficaram que é possível
captar-lhes o ritmo da respiração
mesmo com os vidros fechados.
Deliram.
Exibem gorjeios com impudicas vaidades.
A magnólia a figueira a ameixoeira?
Qual a preferida
dos pássaros que gorjeiam?
As árvores deliram.
Elas mantêm o sol preso
no rendilhado da folhagem.
Elas são as cortinas, verde sombra
das minhas janelas de verão.
Como se pode ver, não possuo
de momento
nenhuma ideia luminosa
sobre o mundo.
***
Lídia Borges
