sexta-feira, 26 de junho de 2026

As árvores que me rodeiam


 Elas


Elas vieram devagar,
um braço que se alonga, outro,
uma mão de dedos finos, vegetais.
Abeiraram-se das janelas
abusivamente
[se um advérbio me é consentido].

Tão perto ficaram que é possível
captar-lhes o ritmo da respiração
mesmo com os vidros fechados.

Deliram.
Exibem gorjeios com impudicas vaidades.

A magnólia a figueira a ameixoeira?
Qual a preferida
dos pássaros que gorjeiam?

As árvores deliram.
Elas mantêm o sol preso
no rendilhado da folhagem.
Elas são as cortinas, verde sombra
das minhas janelas de verão.


Como se pode ver, não possuo
de momento
nenhuma ideia luminosa
sobre o mundo.

***

Lídia Borges