As
festas de família são sempre momentos de alegria, partilha e bem-estar que muito
prezo. Desta vez foi um dos “nossos” jovens que quis dar o nó, afirmando que
afinal a tradição ainda é o que era. A capela onde a noiva foi batizada
(baptizada, ao tempo), lá para São Martinho de Aldoar, decorada a rigor, os
violinos, o canto lírico, a apoteótica entrada da noiva pelo braço do pai, (ao
som de Gabriel’s Oboe Ennio Morricone),
que a entrega junto do altar ao noivo emocionado. Tanta compenetração começa a
perder a graça quando o velho pároco com voz arrastada e modo um tanto
entediado, dá início ao “discurso” já gasto de que a mulher foi criada para completar
o homem, e tal e tal… - Maria, apercebeu-se que não havia vinho
naquele casamento em Caná, na Galileia. Foi Maria, mãe de Jesus, quem se
apercebeu… - Reparem – dizia o abade
bonacheirão - como não podia deixar de
ser, foi uma mulher… tinha de ser uma mulher a reparar que o vinho acabava. Só
podia ter sido uma mulher porque Jesus estava ocupado com outras coisas, outros
pensamentos, pensamentos mais elevados. Jesus não podia ter reparado na falta do
vinho. E quando Maria lhe diz - Não têm vinho - ele responde - Mulher que
temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora. Todavia o milagre da transformação
acontece, porque havia uma mulher atenta às pequenas coisas, uma mulher
consciente das suas características femininas […] Mesmo que o homem por vezes tenha uma resposta
que parece menos simpática, a mulher deve […]
Foi aí
que "desliguei". Reparei na expressão divertida dos amigos dos noivos, (deles e delas)
e não pude deixar de observar, cá com os meus botões, como é fácil transformar, não a água em vinho,
não senhor, mas a mãe em esposa, a esposa em mãe… A mulher em muleta de
coxos.
Felizmente
a cantora começava a entoar (magistralmente) o Ave Maria de Schubert e
senti-me, de novo, apaziguada.
É caso
para dizer - Ainda bem que a tradição já não é o que era!

1 comentário:
Descreves tudo tão bem, Lídia. Gosto tanto de te ler.
Uma boa semana.
Beijos.
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