segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Leituras



Valter Hugo Mãe tem, na minha humilde opinião, o condão de nos colocar perante dilemas do humano que, à primeira vista, nos surgem como absolutamente irresolúveis. E daí que, de cada vez que o leio, ando sem poder ler outra coisa uma data de tempo. Porquê? Porque continuo a tentar ler o mundo através dos seus olhos e ler o mundo através dos seus olhos é muito demorado e faz crescer no peito uma flor que fere e ao mesmo tempo afaga.  Não obstante, há no seu modo de escrever/ser uma inocência tão cruelmente madura, que agarra o leitor pelos cabelos e o obriga a enfrentar o abismo. Neste processo acredito haver quem se deixe transformar como uma peça de olaria antes do fogo.
De Homens imprudentemente poéticos tenho andado a pensar até que ponto o homem, só virtude, desprovido da “maldade”, manteria a sua qualidade de humano, sendo que é a maldade precisamente o que o afasta dos deuses. E a maldade é o quê? Está onde? Na miséria a que se não consegue fugir, apesar do trabalho estendido por todas as horas do dia e por quase todas as horas da noite ou nos atos decorrentes dessa miséria, de todos os tipos de miséria, praticados sob a égide do amor, do ódio ou, que seja, da desesperança.
Não sei, não sei! Tenho de continuar a ler!

As louças pintadas deixavam de valer para cozinhados. Nem para suster água limpa haveriam de ter bondade. Mas, ainda assim as pintava, por oferta aos vizinhos, por oferta ao santuário, depositando nelas as frutas e gostando de ver. Eram de ver. Saburo perdia demasiado tempo com o aspecto fútil dos adornos. Mostrava-se um trabalhador insensato. Os amigos referiam o seu jeito engraçado. Queriam dizer-lhe, era um homem com certo descuido para a sensibilidade. O oleiro corava. Pensava ter outra função no mundo. Queria ser feliz. O Japão, no entanto, nunca definira a felicidade assim. Julgava-se ser uma incúria querer atribuir outra inteligência à Natureza. […]
As pessoas iam ao fogo agradadas com o calor. A primavera hesitava e as temperaturas tinham descido violentamente. O fogo do oleiro valia o sol preso. Um sol aguilhoado para pequenas conversas acerca da necessidade de continuar a viver.

Valter Hugo Mãe, (2016:p.108), Homens imprudentemente poéticos.




Obviamente que a passagem que transcrevo nada tem a ver com a reflexão exposta. Escolhi-a pela poeticidade e pelo forte carácter simbólico. Para bom entendedor...




3 comentários:

deep disse...

Gostei bastante de O Filho de Mil Homens. Fico curiosa em relação a este. Obrigada pela partilha, Lídia. :) Beijos

Graça Pires disse...

Vou comprar o livro. Gosto muito da forma como ele nos põe perante as situações e dos textos excelentes que nos oferece.
Uma boa semana, minha Amiga.
Beijos.

Rogério G.V. Pereira disse...

Sabes?
Tenho lido pouco
Quando tenho concentração falta-me tempo
Quando tenho tempo não me concentro

Há segunda página, vagueio