
Valter
Hugo Mãe tem, na minha humilde opinião, o condão de nos colocar perante dilemas
do humano que, à primeira vista, nos surgem como absolutamente irresolúveis. E daí que, de cada vez
que o leio, ando sem poder ler outra coisa uma data de tempo. Porquê? Porque
continuo a tentar ler o mundo através dos seus olhos e ler o mundo através dos
seus olhos é muito demorado e faz crescer no peito uma flor que fere e ao mesmo tempo afaga. Não obstante, há no seu modo de escrever/ser
uma inocência tão cruelmente madura, que agarra o leitor pelos cabelos e o obriga a enfrentar o abismo. Neste processo acredito haver quem se deixe transformar como uma peça
de olaria antes do fogo.
De Homens imprudentemente poéticos tenho
andado a pensar até que ponto o homem, só virtude, desprovido da “maldade”, manteria
a sua qualidade de humano, sendo que é a maldade precisamente o que o afasta
dos deuses. E a maldade é o quê? Está onde? Na miséria a que se não consegue
fugir, apesar do trabalho estendido por todas as horas do dia e por quase todas
as horas da noite ou nos atos decorrentes dessa miséria, de todos os tipos de miséria, praticados sob a égide
do amor, do ódio ou, que seja, da desesperança.
Não
sei, não sei! Tenho de continuar a ler!
As louças pintadas deixavam de valer para
cozinhados. Nem para suster água limpa haveriam de ter bondade. Mas, ainda
assim as pintava, por oferta aos vizinhos, por oferta ao santuário, depositando
nelas as frutas e gostando de ver. Eram de ver. Saburo perdia demasiado tempo
com o aspecto fútil dos adornos. Mostrava-se um trabalhador insensato. Os
amigos referiam o seu jeito engraçado. Queriam dizer-lhe, era um homem com
certo descuido para a sensibilidade. O oleiro corava. Pensava ter outra função
no mundo. Queria ser feliz. O Japão, no entanto, nunca definira a felicidade
assim. Julgava-se ser uma incúria querer atribuir outra inteligência à
Natureza. […]
As pessoas iam ao fogo agradadas com o
calor. A primavera hesitava e as temperaturas tinham descido violentamente. O
fogo do oleiro valia o sol preso. Um sol aguilhoado para pequenas conversas
acerca da necessidade de continuar a viver.
Valter
Hugo Mãe, (2016:p.108), Homens
imprudentemente poéticos.
Obviamente que a passagem que transcrevo nada tem a ver com a reflexão exposta. Escolhi-a pela poeticidade e pelo forte carácter simbólico. Para bom entendedor...
Obviamente que a passagem que transcrevo nada tem a ver com a reflexão exposta. Escolhi-a pela poeticidade e pelo forte carácter simbólico. Para bom entendedor...
3 comentários:
Gostei bastante de O Filho de Mil Homens. Fico curiosa em relação a este. Obrigada pela partilha, Lídia. :) Beijos
Vou comprar o livro. Gosto muito da forma como ele nos põe perante as situações e dos textos excelentes que nos oferece.
Uma boa semana, minha Amiga.
Beijos.
Sabes?
Tenho lido pouco
Quando tenho concentração falta-me tempo
Quando tenho tempo não me concentro
Há segunda página, vagueio
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