Nove autores, oito contos de Natal e um desejo.
Deixo um pequeno excerto do conto que escrevi. Pode ter o seu interesse para quem aprecia uma escrita de desrealização, (Hugo Friedrich), sem que isso signifique a fuga ao real, o fechamento ao mundo exterior, mas antes uma forma desfocada de o ver/dizer para além da realidade dos nossos dias, em que (de novo) o sentido parece não fazer sentido.
***
[...]
Ocorre-me a ideia de que, nesta
posição confortável de narrador, poderei com toda a liberdade plantar atrás
deste banco uma tília bem alta e frondosa e, de um dos ramos, beneficiar de uma
visão privilegiada sobre a sala onde se encontra o alvo desta investigação. É o
que faço sem, no entanto, deixar de sentir um certo desconforto por este modo
despudorado de agir.
Observo-o. Está comodamente
instalado numa poltrona de pele gasta no meio da saleta. Uma pequena
secretária, alguns livros, umas capas de arquivo desarrumadas completam o
cenário. O homem medita. Tem um livro nas mãos. Abre-o agora vagarosamente.
Ajeita os óculos sobre o nariz e começa a ler. Na sua frente, uma chávena de
café vazia, no canto direito da secretária, alguma coisa sobressai, por quebrar
a melancolia daquele ambiente austero e tristonho. Trata-se de um vaso, uma poinsettia, também conhecida por flor de
Natal que, embora murcha, dá um toque de humanidade à cena.
[...]
***
Até já!

2 comentários:
Minuciosa, cheia de detalhes. Deu vontade de sentar no sofá.
Grande abraço
R.
Bom começo. Fica a vontade de saber o resto. Estou certa de que vai estar rodeada de grandes amigos nesse dia. Que sejam momentos inesquecíveis. Um abraço
Enviar um comentário