Vivido
mais um Natal. Este, como nunca, em estado de profusa [in]consciência de tudo: o dentro e o fora, o
perto e o longe, o passado, o presente, o futuro, os afetos intactos, os afetos
feridos, as pétalas, os espinhos, o doce o amargo, o sempre, o nunca… Tudo incorporado num misto de claridade
e penumbra. Aqui e ali, numa espécie de hiatos de memória, as dúvidas sobre o espaço e o tempo onde me
situo. Preciso pensar para saber que parte do Sentimento pertence ao hoje e que parte não é já d'agora. O corpo, um volume sem volume, o coração, uma ideia arredondada de paz
onde não é possível ignorar um forte travo de melancolia a destemperar sorrisos.
Poderia,
se quisesse, para aliviar tensões, tomar um destes vinhos (quantos tenho já na minha frente, intocados?) que me servem, acompanhados por aquelas palavrinhas de censura, que são
costumeiras, pela minha comprovada falta de competência no que toca a beber. Poderia... (dizem que faz bem), mas nada me convence a separar da minha inseparável caneca de água. Aceito, em contrapartida,
fazer parte do coro. Acompanho as vozes que espontaneamente despontam, do canto superior da mesa, de onde ninguém se levantou, apesar de terminada há muito a refeição. Viajar pela música, da modinha
popular, (que os mais velhos trauteiam em afinação), à mais moderna e erudita. A música, cúmplice fiel dos
momentos bons de viver.
Os pequenos deixam os brinquedos novos, atraídos pelas
cantigas e vêm juntar-se, atentos e divertidos. A exultação, a uma só voz. O ritmo, ora rápido e alegre
ora lento e triste como o Sol que as amplas varandas deixam ver, tombando (tão cedo) sobre
os montes, ao longe.
As chamas na lareira a crescerem à medida que mingua a luz, lá fora.
Cantamos
juntos…
“Corta” - ouvir-se-ia a dado momento, no meio do Hallelujah de Cohen. E tudo ficaria suspenso como um relógio que subitamente tivesse perdido a utilidade pela inexistência do tempo.
Já não
é Natal?


5 comentários:
Lindo, lindo de mais! Melhor: bem escrito de mais. Mas tão angustiante esse desprendimento da realidade de que nos apercebemos até ao aparecimento do coro. (que não é o coro grego e ainda bem)
Beijinhos e continuação das Festas de forma Boa.
Trocar o copo pelo coro
é um bom desafio
Natal? É sempre que um homem queira!
O vinho e a música, dois amigos leais.
Feliz 2017 à volta das letras.
bj
É a altura dos primos se reencontrarem. E que felizes eles ficam quando isso acontece. Um 2017 cheio de alegria e positivismo, são os meus desejos.
É um conto em que o maestro consegue a harmonia dos instrumentos, integrando pulsares diversos.
Maravilhoso!
Parabéns.
Beijinho.
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