Daniel Gerhartz
o
que te traz de volta meu pobre poema?
não vês como te faço cara torta?
de
onde me chegas em tão penosa carência
e porque carregas contigo
tamanho desejo de existência?
não,
não desse lume inflamado, te farei.
nada sei dessa
tinta do poente derrubada no rio
em brilhos deslumbrantes.
só
o pintor conhece os segredos
da
pura caligrafia de certos instantes.
podia
falar-te das rosas, mas...
bem sabes, tenho
pena que sequem as rosas...
é
isso que queres que te diga?
que
secaram as rosas,
que
se dissipou o seu vermelho?
posso
encher teus espaços vazios
de coisas perdidas,
uma
taça de orvalho, um escaravelho
a
patela do jogo da “macaca”, o chapéu de palha
o laço da trança,
que
mais queres que te dê, neste fim de tarde,
tão
tarde... a música, a dança?
o
amor? agora percebo, meu doce poema
sonhas-te
transbordante de sentido
na voragem dos sentidos.
queres
que eu faça do amor teu lema.
tenho
pena de novo, ó poema. já devias saber:
do
amor ninguém sabe, plenamente.
se
to digo deste modo desprendido
é porque é
mentira
e um poema nunca mente.
a
verdade é tudo o que te não digo,
meu
pobre poema que te quedas
desiludido.

3 comentários:
"posso encher teus espaços vazios
com coisas perdidas"
e
"a verdade é tudo o que te não digo"
fosse eu poema
e não sairias daqui sem uma resposta
Embora pondo em causa, a poetisa, de soslaio (e que bela forma de o fazer!) tudo admite que possa acontecer.
Adorei, Lídia!
Beijos
Lídia:
Um poema numa "sai" como ele quer mas sim como o coração do poeta o determina.
Um beijinho grato por me dar a conhecer este seu belo poema.
Fê
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