sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Podia falar-te das rosas



 Daniel Gerhartz

o que te traz de volta meu pobre poema?
não vês como te faço cara torta?
de onde me chegas em tão penosa carência
e porque carregas contigo
tamanho desejo de existência?

não, não desse lume inflamado, te farei.
nada sei dessa tinta do poente derrubada no rio
em brilhos deslumbrantes. 
só o pintor conhece os segredos
da pura caligrafia de certos instantes.

podia falar-te das rosas, mas...
bem sabes, tenho pena que sequem as rosas...
é isso que queres que te diga?
que secaram as rosas,
que se dissipou o seu vermelho?

posso encher teus espaços vazios
de coisas perdidas,
uma taça de orvalho, um escaravelho
a patela do jogo da “macaca”, o chapéu de palha
o laço da trança,
que mais queres que te dê, neste fim de tarde,
tão tarde... a música, a dança?

o amor? agora percebo, meu doce poema
sonhas-te transbordante de sentido
na voragem dos sentidos.
queres que eu faça do amor teu lema.
tenho pena de novo, ó poema. já devias saber:
do amor ninguém sabe, plenamente.
se to digo deste modo desprendido
é porque é mentira 
e um poema nunca mente.

a verdade é tudo o que te não digo,
meu pobre poema que te quedas
desiludido. 




3 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

"posso encher teus espaços vazios
com coisas perdidas"
e
"a verdade é tudo o que te não digo"

fosse eu poema
e não sairias daqui sem uma resposta

AC disse...

Embora pondo em causa, a poetisa, de soslaio (e que bela forma de o fazer!) tudo admite que possa acontecer.
Adorei, Lídia!

Beijos

Fê blue bird disse...

Lídia:
Um poema numa "sai" como ele quer mas sim como o coração do poeta o determina.

Um beijinho grato por me dar a conhecer este seu belo poema.