quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Do que [me] oiço




preparo-me religiosamente
para escrever o que [me] oiço.


assim, dou conta de tudo o que foi maré alta
fúria do vento, grito destemido de gaivota,
de tudo o que se transformou em silêncio,
após a última onda
ter desfalecido na praia,
profundamente anoitecida.

assisti ao aluimento de edifícios
construídos com suor, da raiz até
ao ramo mais alto. diante de mim ruíram casas
arderam árvores, desabaram torres,
naufragaram navios e poemas.

ficou este rumor acidulado
de desertos e catos. o silvo insaciável
de serpentes cogitando enredos.

amo ainda e só
estes pedacinhos de azul.
reservo-os para sustentar nossos [meus?] sonhos.
magrinhos.
protejo-os ciosamente não vá alcançá-los
a tristeza. a vossa,
que na minha vive,

tão plenamente!




(pintura: Daniel Gerhartz)







2 comentários:

Maria Rodrigues disse...

Um poema maravilhoso.
Que pelo menos alguns dos nossos sonhos consigam sobreviver, às tristezas da vida.
Beijinhos
Maria

Teresa Almeida disse...

influencia-me esta original oração e, em turbulência, me ouço.
é um poema encantador.
beijinho.