preparo-me
religiosamente
para
escrever o que [me] oiço.
assim, dou conta de tudo o que foi maré alta
fúria
do vento, grito destemido de gaivota,
de tudo o que se transformou em silêncio,
após
a última onda
ter
desfalecido na praia,
profundamente
anoitecida.
assisti
ao aluimento de edifícios
construídos
com suor, da raiz até
ao
ramo mais alto. diante de mim ruíram casas
arderam
árvores, desabaram torres,
naufragaram
navios e poemas.
ficou
este rumor acidulado
de
desertos e catos. o silvo insaciável
de
serpentes cogitando enredos.
amo
ainda e só
estes
pedacinhos de azul.
reservo-os
para sustentar nossos [meus?] sonhos.
magrinhos.
protejo-os
ciosamente não vá alcançá-los
a
tristeza. a vossa,
que
na minha vive,
tão
plenamente!
(pintura: Daniel Gerhartz)

2 comentários:
Um poema maravilhoso.
Que pelo menos alguns dos nossos sonhos consigam sobreviver, às tristezas da vida.
Beijinhos
Maria
influencia-me esta original oração e, em turbulência, me ouço.
é um poema encantador.
beijinho.
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