Os doutos da Poesia dizem,
[não sei se a sério, se a
brincar],
que ficaria a arte favorecida
se palavras como silêncio, pássaros,
trinados,
fossem banidas dos poemas do
Agora.
Sei. Palavras há gastas como
corpos
à beira do abismo. Palavras
corrompidas,
palavras que se deixam
prostituir
pelo volutear das ruas,
palavras mutantes
que perdem a inocência e o
rumo
às mãos de libertinos
alfabetos.
Palavras escritas em espaços sem linhas nem margens.
Palavras escritas em espaços sem linhas nem margens.
Mas sem elas como cantar do Hoje
este assombro matinal, este
estar preso
ao verde-azul dos olhos do
gato, de ramo em ramo
em impacientes sobressaltos.
Como dizer, dos bicos, as divinas
sinfonias
a incitar a morte, ali tão
perto, de unhas afiadas,
enquanto simultaneamente enaltecem a Vida.
A tudo alheios, de tudo inculpados.
Silêncio, pássaros, trinados e todas as outras palavras proscritas,
Convoco-vos já que o Amanhã é tarde para mim.
Convoco-vos já que o Amanhã é tarde para mim.
Façam regras, inventem mapas,
os doutos da Poesia
para que eu, em estado de viva consciência,
possa sempre quebrá-las, ignorá-los.
possa sempre quebrá-las, ignorá-los.
(Imagem: óleo sobre tela, Cinderela, Júlia Calçado)

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