quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um poema mais





seara afora, os passos, sem sombra nem sobressalto. linfa apenas.
a luz em lenta cadência serena a hora. e a nau
que cruzou ventos procelosos retorna ao cais, incólume.
reconta-se a história. é ela o fio que liga o tempo
e o desfiará até ao derradeiro pingo de vida. nela as palavras
abrem passagem como se nascessem no agora de cada instante.

e, contudo, velhas são nesse nascer. desintegram-se
como as alfazemas secas dentro do frasco sem rótulo,
sobre o armário. pó, ao mais leve toque dos dedos. do aroma, quem saberá? delido que foi no mofo do abandono. desforra, dó, adoração?
apesar disso, na bonomia da manhã, existências súbitas.

esfregam os olhos doridos de incessantes nascenças. trôpegas,
embatem nos espelhos, desfiguram-se, transfiguram-se, julgam
o sempre visto pelo assombro do nunca visto. e não veem, nunca veem.

para quê um poema mais? – questiono.
um poema-ruído, um poema-contestação, um poema-pena, um poema-tudo
um poema-desolação, um poema-amor, um poema-pouco? para quê um poema mais?

deixarei mil versos guardados no limbo do meu esquecimento voluntário
como se um saber longínquo e desconhecido 
inesperadamente mo viesse ordenar 
com palavras velhas acabadas de nascer. 



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