Imagem: sophia de mello breyner andressen
uma vida de poeta, 2011, Caminho
Por vezes, voltar aos "meus" poetas, é preciso.
Com Sophia: «Queremos uma sociedade justa, livre e limpa. Queremos um país sem luxo e sem lixo, um país limpo.»
« [...]
Não haverá poesia do negativo? Há, claro. "Cantaremos o desencontro: / O limiar e o linear perdidos // Cantaremos o desencontro: / A vida errada num país errado / Novos ratos mostram a avidez antiga." E, como em ensaio já antigo tentei dizer, Pessoa é o grande exemplo. Pessoa vem nitidamente depois do absoluto: "Nasceste depois / E alguém gastara em si toda a verdade. / O caminho da Índia já fora descoberto / Dos deuses só restava / o incerto perpassar / No murmúrio e no cheiro das paisagens / és muitos rostos / Para que não sendo ninguém dissesses tudo / Viajavas no avesso no inverso no adverso." Mas dizer tudo é da ordem da extensão, não da ordem da intensidade: é a enumeração (que em Sophia corresponde a uma figura insistente até que o salto se dê para a emergência do absoluto), mas não chega a ser a nomeação, o gesto essencial: é este o ofício do poeta. Até conseguir que o Dois seja Um, e isso será possível quando o Dois for o Dois dos espelhos: "Este é o país onde a carne das estátuas como choupos estremece / Atravessada pelo respirar leve da luz / Aqui brilha o azul-respiração das coisas / Nas praias onde há um espelho voltado para o mar."»
Eduardo Prado Coelho, Público 10-07-04

2 comentários:
É sempre bom regressar a Sophia, Lídia. :)
Bom domingo. Beijo
Eduardo Prado Coelho faz falta para nos fazer pensar.
A Sophia também. " Queremos um país sem luxo e sem lixo, um país limpo." Maravilhosa!
Um beijo minha Amiga.
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