domingo, 19 de fevereiro de 2017

Revisitações


 Imagem: sophia de mello breyner andressen
 uma vida de poeta, 2011, Caminho


Por vezes, voltar aos "meus" poetas, é preciso.

Com Sophia: «Queremos uma sociedade justa, livre e limpa. Queremos um país sem luxo e sem lixo, um país limpo.»

   « [...]
     Não haverá poesia do negativo? Há, claro. "Cantaremos o desencontro: / O limiar e o linear perdidos // Cantaremos o desencontro: / A vida errada num país errado / Novos ratos mostram a avidez antiga." E, como em ensaio já antigo tentei dizer, Pessoa é o grande exemplo. Pessoa vem nitidamente depois do absoluto: "Nasceste depois / E alguém gastara em si toda a verdade. / O caminho da Índia já fora descoberto / Dos deuses só restava / o incerto perpassar / No murmúrio e no cheiro das paisagens / és muitos rostos /   Para que não sendo ninguém dissesses tudo / Viajavas no avesso no inverso no adverso."    Mas dizer tudo é da ordem da extensão, não da ordem da intensidade: é a enumeração (que em Sophia corresponde a uma figura insistente até que o salto se dê para a emergência do absoluto), mas não chega a ser a nomeação, o gesto essencial: é este o ofício do poeta. Até conseguir que o Dois seja Um, e isso será possível quando o Dois for o Dois dos espelhos: "Este é o país onde a carne das estátuas como choupos estremece / Atravessada pelo respirar leve da luz / Aqui brilha o azul-respiração das coisas / Nas praias onde há um espelho voltado para o mar."»
 
Eduardo Prado Coelho, Público 10-07-04






 

2 comentários:

deep disse...

É sempre bom regressar a Sophia, Lídia. :)

Bom domingo. Beijo

Graça Pires disse...

Eduardo Prado Coelho faz falta para nos fazer pensar.
A Sophia também. " Queremos um país sem luxo e sem lixo, um país limpo." Maravilhosa!
Um beijo minha Amiga.