terça-feira, 7 de março de 2017

Maria Lamas




A condição da mulher
está de tal forma ligada aos problemas fundamentais da humanidade
que não será possível separá-los. 

(Maria Lamas, A mulher no Mundo, Vol.I: 577)




Não sei bem o motivo pelo qual, hoje, me deu para mergulhar neste assunto. Talvez porque se aproxima o 8 de Março - Dia da Mulher - ou talvez pelas declarações de um qualquer senhor deputado do Parlamento Europeu:
- É mais pequena, mais fraca menos inteligente – disse o senhor. Não o Senhor, mas o senhor deputado polaco que não tem culpa nenhuma de lhe terem facultado o direito de estar ali, apesar das ideias bolorentas, desajustadas do tempo, transfiguradas por profundas marcas ideológicas que, também em Portugal, têm os seus adeptos, (diga-se de passagem), defensores  de uma certa visão mitológica da criação do mundo que coloca a mulher, logo à partida, numa posição subalterna em relação ao homem, agarrando-se ao Génese como tábua de salvação, no vasto mar da arrogância e “natural” superioridade de onde olham o “Outro”.

Falo-vos de Maria Lamas, (1893-1983), tradutora, ensaísta, jornalista e ativista política pelos direitos das mulheres portuguesas e pela Paz no Mundo. Falo-vos dela e do seu livro - As Mulheres do meu País (1948) –Trata-se de um estudo de caráter sociológico e cultural, (no feminino), resultante de uma viagem pelo país, empreendida pela autora, logo que vê encerrado o Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, (1947), por ordem de Salazar, ao qual presidia e cujo objeto central era a defesa dos direitos sociais e políticos das mulheres.
A referida viagem tem como finalidade obter uma visão realista da condição da mulher portuguesa, dos meados do século passado, durante o regime do Estado Novo, através do contacto direto com as populações, quer nos meios urbanos quer nos meios rurais.
Lê-se numa entrevista de Maria Lamas, dada aos 82 anos e publicada “in” Mulheres portuguesas na resistência, Lisboa: Seara Nova, (1975:98-101):

Daí, nasceu o meu livro "As Mulheres do meu País". Durante dois anos viajei de burro, de jeep, a pé. Vi e fotografei. Leia-se o livro, e conclua-se de que modo é que o Estado protegia as mulheres. O livro foi escrito em fascículos e, por isso, não pôde ser proibido. Mas, a partir daí, a censura proibiu-me de publicar fosse o que fosse, sem a sua aprovação prévia. E, assim, o meu livro seguinte, "As Mulheres no Mundo", teve de passar primeiro pela censura. Por essa razão, toda a minha obra literária foi muito prejudicada, pois um escritor sente-se manietado.

Fica um pequeno excerto do referido trabalho, relacionado com a questão, ainda hoje pertinente, da diferença dos salários por trabalho igual, entre homens e mulheres:

Numa fábrica com várias secções há uma oficina onde o trabalho é feito de pé, ao torno, sendo o operário forçado ao constante movimento da perna, que sobe e desce, para manter o aparelho em movimento. Nessa oficina trabalhavam ainda há pouco tempo quinze mulheres e um homem. Dada a violência da tarefa evidentemente imprópria para mulheres, fez-se a pergunta: *

- A lei permite o trabalho feminino nesta secção?
-Não permite, mas estamos em regime de transição.
-?...
- As mulheres que aqui trabalhavam anteriormente à nova lei não são despedidas e conservam-se nos seus lugares até quererem. Só à medida que forem saindo é que as substituímos por homens.- E por que insistem elas em continuar neste trabalho?
-Porque sempre ganham melhor... É a secção mais bem paga.
-Quanto?
-Dezoito escudos diários.
-E o homem ganha o mesmo?
-Não, o homem ganha trinta e dois.
-Mas o serviço não é o mesmo?
-Pois é...
-E o rendimento do trabalho?
-Francamente, nesta secção o trabalho da mulher rende mais...
-Então?
-Bem vê, o salário do homem é sempre superior.
***
Então, vá lá…
Receba a rosa, o beijo... mas não esqueça o doloroso e difícil percurso de luta das mulheres que ainda hoje, (não obstante o progresso), parece não querer dar tréguas. Não se trata da "guerra dos sexos", obviamente, mas de uma "guerra" contra as convenções culturais ou de outra ordem qualquer que limitem as liberdades e os direitos dos mais vulneráveis/(vulnerabilizados).


*Sublinhado meu” – Ter em conta a contextualização sociocultural e política (leis de «proteção» do trabalho da mulher no Estado Novo.) 



3 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Maria Lamas é... nossa irmã

Graça Pires disse...

Sempre atenta, Lídia. Conheço o trabalho da Maria Lamas. Fazem falta essas vozes empenhadas. Afinal o mundo está mal e há muitas mulheres, mesmo "as mulheres do meu país" a sofrerem violência e discriminação de toda a espécie.
Também li sobre o tal deputado polaco... Enfim, a arrogância dos ignorantes...
Um beijo e um dia lindo para ti.

Fê blue bird disse...

Obrigada, fiquei muito mais rica culturalmente.

Beijinho