A
condição da mulher
está de tal forma ligada aos problemas fundamentais da
humanidade
que não será possível separá-los.
(Maria Lamas, A
mulher no Mundo,
Vol.I: 577)
Não sei bem o motivo pelo qual, hoje, me deu para mergulhar neste assunto. Talvez porque se aproxima o 8 de Março - Dia da
Mulher - ou talvez pelas declarações de um qualquer senhor deputado do
Parlamento Europeu:
- É mais
pequena, mais fraca menos inteligente
– disse o senhor. Não o Senhor, mas o senhor deputado polaco que não tem culpa
nenhuma de lhe terem facultado o direito de estar ali, apesar das ideias
bolorentas, desajustadas do tempo, transfiguradas por profundas marcas ideológicas que,
também em Portugal, têm os seus adeptos, (diga-se de passagem), defensores de uma certa visão
mitológica da criação do mundo que coloca a mulher, logo à partida, numa
posição subalterna em relação ao homem, agarrando-se ao Génese como tábua de salvação, no vasto mar da
arrogância e “natural” superioridade de onde olham o “Outro”.
Falo-vos de Maria Lamas, (1893-1983), tradutora, ensaísta, jornalista e
ativista política pelos direitos das mulheres portuguesas e pela Paz no Mundo. Falo-vos dela
e do seu livro - As Mulheres do
meu País (1948) –Trata-se de um estudo de
caráter sociológico e cultural, (no feminino), resultante de uma viagem pelo
país, empreendida pela autora, logo que vê encerrado o Conselho
Nacional de Mulheres Portuguesas, (1947), por ordem de Salazar, ao qual presidia e
cujo objeto central era a defesa dos direitos sociais e políticos das mulheres.
A referida viagem tem como finalidade obter uma visão realista da
condição da mulher portuguesa, dos meados do século passado, durante o regime
do Estado Novo, através do contacto direto com as populações, quer nos meios urbanos quer nos meios rurais.
Lê-se numa entrevista de Maria Lamas, dada aos 82 anos e publicada “in” Mulheres portuguesas na resistência, Lisboa:
Seara Nova, (1975:98-101):
Daí, nasceu o meu livro "As Mulheres do meu País". Durante dois anos viajei de burro, de jeep, a pé. Vi e
fotografei. Leia-se o livro, e conclua-se de que modo é que o Estado protegia
as mulheres. O livro foi escrito em fascículos e, por isso, não pôde ser
proibido. Mas, a partir daí, a censura proibiu-me de publicar fosse o que
fosse, sem a sua aprovação prévia. E, assim, o meu livro seguinte, "As
Mulheres no Mundo", teve de passar primeiro pela censura. Por essa razão,
toda a minha obra literária foi muito prejudicada, pois um escritor sente-se
manietado.
Fica um
pequeno excerto do referido trabalho, relacionado com a questão, ainda hoje pertinente, da diferença dos salários por trabalho igual, entre homens e mulheres:
Numa fábrica com várias secções há uma oficina onde o
trabalho é feito de pé, ao torno, sendo o operário forçado ao constante
movimento da perna, que sobe e desce, para manter o aparelho em movimento.
Nessa oficina trabalhavam ainda há pouco tempo quinze mulheres e um homem. Dada
a violência da tarefa evidentemente imprópria para mulheres, fez-se a pergunta:
*
- A lei permite o trabalho feminino nesta secção?
-Não permite, mas estamos em regime de transição.
-?...
- As mulheres que aqui trabalhavam anteriormente à
nova lei não são despedidas e conservam-se nos seus lugares
até quererem. Só à medida que forem saindo é que as substituímos por homens.- E
por que insistem elas em continuar neste trabalho?
-Porque sempre ganham melhor... É a secção mais bem
paga.
-Quanto?
-Dezoito escudos diários.
-E o homem ganha o mesmo?
-Não, o homem ganha trinta e dois.
-Mas o serviço não é o mesmo?
-Pois é...
-E o rendimento do trabalho?
-Francamente, nesta secção o trabalho da mulher rende
mais...
-Então?
***
Então, vá
lá…
Receba a
rosa, o beijo... mas não esqueça o doloroso e difícil percurso de luta das mulheres que ainda hoje, (não obstante o progresso), parece
não querer dar tréguas. Não se trata da "guerra dos sexos", obviamente, mas de uma "guerra" contra as convenções culturais ou de outra ordem qualquer que limitem as liberdades e os direitos dos mais vulneráveis/(vulnerabilizados).
*Sublinhado meu” – Ter em
conta a contextualização sociocultural e política (leis de «proteção» do
trabalho da mulher no Estado Novo.)




3 comentários:
Maria Lamas é... nossa irmã
Sempre atenta, Lídia. Conheço o trabalho da Maria Lamas. Fazem falta essas vozes empenhadas. Afinal o mundo está mal e há muitas mulheres, mesmo "as mulheres do meu país" a sofrerem violência e discriminação de toda a espécie.
Também li sobre o tal deputado polaco... Enfim, a arrogância dos ignorantes...
Um beijo e um dia lindo para ti.
Obrigada, fiquei muito mais rica culturalmente.
Beijinho
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