O Bernardo é um pequeno/grande amigo que tem agora uns onze anos. Ontem, ouviu-me dizer que há ocasiões em que perco versos. Versos daqueles que já vêm prontinhos a colher como frutos maduros. Perco-os - dizia eu - porque enquanto procuro o lápis e o bloco de notas que nunca estão onde os deixei (ou talvez estejam), as palavras, que são voláteis e impacientes, transfiguram-se e quando, por fim, me encontro em condições de as colher, já eram!...
O Bernardo, de sobrancelha erguida e nariz torcido, com aquela expressão própria de uma reprimenda do género: ai, Lídia Lídia... interfere - Para que queres o telemóvel? - pergunta. Para falar às pessoas - respondo. - Dá cá. Vou pôr aqui no ecrã, bem à mão, esta janelinha, vês? Quando cair algum verso do céu, clicas depressa e começas a escrever. Depois, vês aqui? Guardar. Não te esqueças de guardar. Não custa nada. Só perde versos quem quer...
O meu amigo Bernardo, por vezes, deixa-me sem palavras.
Hoje escrevi algumas, no "memorando". E não me esqueci de guardá-las:
Memorando
Ao Bernardo
pensado para amparar a queda de palavras
que a horas improváveis tombam do céu,
um memorando é um lugar
onde um pastor desmemoriado entra,
a tocar flauta [ou não]
seguido de todos os versos tresmalhados
que é capaz de encantar.
não para os afogar no rio da aldeia,
[seria uma atrocidade],
não para os guardar, apenas,
mas para os lançar, como migalhas de pão,
aos pardais que crescem nas árvores frondosas
que existem dentro da cabeça de qualquer criança.

4 comentários:
Bom conselho. O Memorando do telelé é uma grande ajuda.Eu utilizo.
Sabes que de tudo o que li aqui
há uma coisa que me acalmou tanto, tanto
que nem sei te dizer quanto
o Bernardo trata-te por tu! e é (parece) profundo
o respeito mutuo
A sabedoria sai da boca das crianças. O Bernardo tem toda a razão. E dedicaste-lhe um poema maravilhoso.
Um bom fim de semana, minha Amiga.
Um beijo.
simplesmente maravilhoso o teu poema!Bravo! Forte abraço.
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