quinta-feira, 23 de março de 2017

Um rio de palavras remotas


                                                                                                                             Daniel Gerhartz 

tão ténue que mal se nota
desamparo apenas pressentido
no declinar das pálpebras
à hora do supremo cansaço. metade
certeza, metade dúvida
e o resto, um rio de palavras remotas
inaudíveis.

por sob a ordem adurida de tudo
a mais genuína desordem brilha.
nada mais querer do nada já visto. o saber,
uma praça desguarnecida de luz
tão pequena quanto árida.
nem a sombra do chafariz ao meio
lembra já o gorjeio alegre que foi
a água na sede das gargantas
nos alvores do verão.

a fragosidade do chão age
contra a nudez dos pés. queima.
e nos braços, ainda
esta aveludada ternura
como um abraço dobado 
em torno de ti.





1 comentário:

Zélia Guardiano disse...

Versos encantadores, Lidia! Muito! Beijos.