domingo, 19 de março de 2017

"Não sei como vieste"



Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.


Eugénio de Andrade




intransponível a mudez do teu rosto
na moldura.
Que música escutas tão atentamente
Que não dás por mim?
contudo contemplo em ti tanto do que
me é infância e limpidez.

já começaram a florir as glicínias
no muro, sabes?
no ar o lilás daquele perfume inebriante
de acordar lembranças.
ébrias, põem-se a percorrer
os dias, os meses, os anos
que não pudemos atravessar 
juntos.
penso comigo que
terá fundamento
a suspeita do poeta:
algum caminho deve haver
para regressar da morte.

voz de embalar a tua,
presença conciliadora a habitar-me os sentidos
água fresca no latejar cálido das angústias
chama amena nos frios longos do inverno
júbilo na floração de poemas e sonhos.
sim, deve haver um caminho
para regressar da morte...

esta vaga, brisa ou beijo
poisando-me na alma, de mansinho
alegre ao ponto de chorar.

 

2 comentários:

Graça Pires disse...

"deve haver um caminho
para regressar da morte..." Tinha razão o Eugénio...
Mas tu, minha amiga dialogaste com ele para dizeres que uma brisa ou um beijo te alegrou...
Um poema tão belo que tenho que o ler mais vezes.
Uma boa semana.
Um beijo.

Rogério G.V. Pereira disse...

"alegre ao ponto de chorar."

Eis um estado que conheço bem
mesmo que não saiba o caminho para regressar da morte