quarta-feira, 3 de maio de 2017

Como dizer?







Inquieta-me a lucidez de certas horas.
Como dizer? Tudo nelas é perfeito 
e claro e inabalável até à dor.

A realidade
põe-se a subir sorrateira pelo corpo fusiforme
de sonhos e desejos. Mata-os!

É perigoso viver desarmado 
na lucidez das horas. 
Quando menos se espera, morre-se!

Quero uma lanterna sempre atenta
entrar com ela no inexprimível sossego 
que precede a tempestade.

Escutar o respirar aflito dos espaços
entre dois trovões, duas guerras, dois gritos 
separados apenas por um filamento de cerda.

Uma área indeterminada 
a que só por distração ou ignorância 
chamamos silêncio.


Lídia Borges

Baile de Cítaras, (2015), Poética Edições.

1 comentário:

Joaquim do Carmo disse...

Este "Baile de Cítaras" é uma sinfonia de indescritível beleza que não me canso de escutar, em absoluto 'silêncio'!
Beijinho