domingo, 11 de junho de 2017

Leituras





    Tenho livros por toda a casa, como muitos terão.  Comigo é assim: há os que ocupam os seus lugares nas estantes, como vestidos guardados ao fundo do guarda-fatos e os que trago a uso. Estes ocupam as divisões da casa aleatoriamente, não vá, de repente, entre uma tarefa e outra, ser necessário um verso, uma frase, um pensamento..., no quarto, em cima da mesinha de cabeceira, poesia, a de Eugénio, sempre, ainda que já nem sempre a escolhida à hora de deitar ou de acordar, madrugada ainda ou manhã bem cedinho. Mas com Eugénio é assim. Já experimentei arrumar o volume que reúne a maior parte da sua obra - Poesia - na estante do corredor e, acontece que não dormi nada bem, de modo que fui logo resgatá-lo à prateleira para o devolver ao seu lugar original. A Arminda que ajuda cá em casa, assim como quem não quer nada, foi-me dizendo que “aquele” deve ser um livro muito difícil de ler, pois enquanto os outros, vão mudando frequentemente de sítio, “aquele” não sai da minha cabeceira, há anos. Disse-lhe que a Poesia não é para ler, mas para ir lendo, que há alguma que nunca está completamente lida... Olhou para mim com um sorriso e não disse mais nada. Acho que não “acreditou”.
Ainda no quarto a acompanhar Eugénio, neste momento, Alice Vieira, Filipa Leal, Fiama. Muito assídua também, Fiama, na minha mesinha de cabeceira. Adiante… na sala, poesia, muita e variada. Mais à mão, Sophia, [já faz parte da família], mas também Carlos de Oliveira, Daniel Faria, Tolentino, Jorge Sousa Braga, e os brasileiros Manoel de Barros, Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Em segunda fila, (por agora), Al Berto, Herberto Hélder, Torga, Manuel António Pina, Luísa Amaral, e tantos outros que se soubessem em segunda fila, fosse onde fosse, morreriam de indignação (e com razão). Vale que muitos já morrereram... Aos outros direi, em miserável desculpa, que se estão cá em casa é porque os escolhi. Nas prateleiras do fundo, ensaios e crítica literária q.b.. Lá fora, na mesa do terraço, Clarice Lispector e as suas crónicas, anotações, pensamentos, tudo junto em A Descoberta do Mundo. Pego-lhe geralmente depois do almoço, à hora do cafezinho quando o tempo admite esplanada. Gosto dessa particularidade dos textos jornalísticos de Clarice, a de não abandonar, nem nesse género mais distante da ficção, os temas metafísicos que a caracterizam enquanto escritora.
 
 Depois há o meu cantinho, o cadeirão extensível, só meu, para os momentos só meus, aqueles em que o mundo, parecendo mais longe, se revela, na realidade, menos opaco, mais fácil de "ver", e portanto mais perto. Em cima da caixa do chá, há uns dias, aguardava silenciosamente o Quantas Madrugadas Tem a Noite, (lusófonos), Ondjaky. Foi aí, no meu cantinho predileto, que hoje, a partir do meio da tarde, “aterrei”. E confesso que me deixei embrenhar completamente nestas páginas, tão leves quanto densas, tão longínquas quanto próximas, tão simples quanto complexas, a provocarem o riso e a lágrima com a mesma facilidade, por vezes, na mesma página, no mesmo ambiente em que convivem a morte e a vida, inseparáveis, como velhas amigas que são. Ondjaky tem muito que contar, não há dúvida, um poderio criador desconcertante, uma construção narrativa irrepreensível, uma linguagem fluente em que o coloquial é elevado ao literário com a mestria de que só os grandes são capazes.
 Adoro este “menino”!

De
Quantas Madrugadas Tem a Noite, (2010):

«Quando éramos candengues, eu comecei a gostar de comer qualquer tipo de formigas, tás a rir?, é verdade, uma minha avó me disse que comer formigas fazia os olhos então ficarem mais bonitos, quer dizer, aquelas formigas de de-vez-em-quando que um gajo encontrava no açucareiro, mas eu fui mais longe, toda a formiga que encontrava no jardim eu pitava, um dia apanhei uma diarrumba séria mesmo, e a minha avó quis saber se eu tinha comido doces ou quê, e eu me lembrei
Só se for das formigas
Ela riu, meu, riso dela lindo na velhice dos lábios dela, e aqueles olhos também, riso das velhas mesmo, todas nossas avós, ela riu bué, e aí, eu já era mais crescido, me falou
Tu já tens uns olhos tão bonitos, não comas mais formigas
Foi só por isso muadiê que eu deixei de comer, porque ela mesmo me garantiu que as formigas já tinham feito todo o salo que tinham pra fazer nos meus olhos. Mas – vício, muadiê, de vez em quando vou no quintal e pito uma, fazer mais como, meu jeito só infantil de estar com a minha avó, te ponho aqui essa confissão, mas num é pra ires contar a ninguém!» (p.49)

[…]

«Pessoalmente tenho paixão pela cor amarela, especialmente essa assim bem torrada: ela me deixa a cabeça vazia, em calmaria, e eu gosto de ter a cabeça assim vazia pro vento passar nela e eu estar a pensar um grande nada, minhas liberdades de ficar quieto aqui dentro – na cabeça das estórias, e ficar a rir tipo bêbado, riso das alegrias maiores, rir nada de nada, tipo os ndengues, faz conta um gajo tá sentado no muro sem pressas de ir a nenhum lado.
E rir só, a cabeça cheia dos vazios…»(p. 52)

[...]

«Muadiê: o que eu li, eu li: Meus livros antigos, outra minha vida, antes das bebidas e das miúdas, antes do estatuto, o que eu li foram minhas outras vidas enriquecidas nas ondas das palavras. Outras vidas?, está tudo lá, nos livros, tou ta pôr, incendiadas imaginações que tomavam conta de mim, nunca escrevi poesia: fui! »(p. 106)




1 comentário:

Graça Pires disse...

Entendo-te tão bem em relação aos livros... OndjaKy é uma excelente escolha...
Uma boa semana, minha Amiga.
Um beijo.