Tenho livros por toda a casa, como muitos terão. Comigo é assim: há os que ocupam os seus lugares nas estantes, como vestidos guardados ao fundo do guarda-fatos e os que trago a uso. Estes ocupam as divisões da casa aleatoriamente, não vá, de repente, entre uma tarefa e outra, ser necessário um verso, uma frase, um pensamento..., no quarto, em cima da mesinha de cabeceira, poesia, a de Eugénio, sempre, ainda que já nem sempre a escolhida à hora de deitar ou de acordar, madrugada ainda ou manhã bem cedinho. Mas com Eugénio é assim. Já experimentei arrumar o volume que reúne a maior parte da sua obra - Poesia - na estante do corredor e, acontece que não dormi nada bem, de modo que fui logo resgatá-lo à prateleira para o devolver ao seu lugar original. A Arminda que ajuda cá em casa, assim como quem não quer nada, foi-me dizendo que “aquele” deve ser um livro muito difícil de ler, pois enquanto os outros, vão mudando frequentemente de sítio, “aquele” não sai da minha cabeceira, há anos. Disse-lhe que a Poesia não é para ler, mas para ir lendo, que há alguma que nunca está completamente lida... Olhou para mim com um sorriso e não disse mais nada. Acho que não “acreditou”.
Ainda no quarto a acompanhar Eugénio,
neste momento, Alice Vieira, Filipa Leal, Fiama. Muito assídua também, Fiama,
na minha mesinha de cabeceira. Adiante… na sala, poesia, muita e variada. Mais
à mão, Sophia, [já faz parte da família], mas também Carlos de Oliveira, Daniel
Faria, Tolentino, Jorge Sousa Braga, e os brasileiros Manoel de Barros,
Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Em segunda fila, (por agora), Al Berto,
Herberto Hélder, Torga, Manuel António Pina, Luísa Amaral, e tantos outros que se soubessem em segunda fila, fosse onde fosse, morreriam de indignação (e com razão). Vale que muitos já morrereram... Aos outros direi, em miserável desculpa, que se estão cá em casa é porque os escolhi. Nas prateleiras do fundo, ensaios e crítica literária q.b.. Lá fora, na mesa do
terraço, Clarice Lispector e as suas crónicas, anotações, pensamentos, tudo
junto em A Descoberta do Mundo. Pego-lhe
geralmente depois do almoço, à hora do cafezinho quando o tempo admite
esplanada. Gosto dessa particularidade dos textos jornalísticos de Clarice, a de não abandonar, nem nesse género mais distante da ficção, os temas metafísicos
que a caracterizam enquanto escritora.
Depois
há o meu cantinho, o cadeirão extensível, só meu, para os momentos só meus,
aqueles em que o mundo, parecendo mais longe, se revela, na realidade, menos
opaco, mais fácil de "ver", e portanto mais perto. Em cima da caixa do chá, há uns dias,
aguardava silenciosamente o Quantas Madrugadas Tem a Noite, (lusófonos),
Ondjaky. Foi aí, no meu cantinho predileto, que hoje, a partir do meio da
tarde, “aterrei”. E confesso que me deixei embrenhar completamente nestas
páginas, tão leves quanto densas, tão longínquas quanto próximas, tão simples
quanto complexas, a provocarem o riso e a lágrima com a mesma facilidade, por
vezes, na mesma página, no mesmo ambiente em que convivem a morte e a vida,
inseparáveis, como velhas amigas que são. Ondjaky tem muito que contar, não há
dúvida, um poderio criador desconcertante, uma construção narrativa
irrepreensível, uma linguagem fluente em que o coloquial é elevado ao literário
com a mestria de que só os grandes são capazes.
Adoro
este “menino”!
De
Quantas
Madrugadas Tem a Noite, (2010):
«Quando
éramos candengues, eu comecei a gostar de comer qualquer tipo de formigas, tás
a rir?, é verdade, uma minha avó me disse que comer formigas fazia os olhos
então ficarem mais bonitos, quer dizer, aquelas formigas de de-vez-em-quando
que um gajo encontrava no açucareiro, mas eu fui mais longe, toda a formiga que
encontrava no jardim eu pitava, um dia apanhei uma diarrumba séria mesmo, e a
minha avó quis saber se eu tinha comido doces ou quê, e eu me lembrei
Só
se for das formigas
Ela
riu, meu, riso dela lindo na velhice dos lábios dela, e aqueles olhos também,
riso das velhas mesmo, todas nossas avós, ela riu bué, e aí, eu já era mais
crescido, me falou
Tu
já tens uns olhos tão bonitos, não comas mais formigas
Foi
só por isso muadiê que eu deixei de comer, porque ela mesmo me garantiu que as
formigas já tinham feito todo o salo que tinham pra fazer nos meus olhos. Mas –
vício, muadiê, de vez em quando vou no quintal e pito uma, fazer mais como, meu
jeito só infantil de estar com a minha avó, te ponho aqui essa confissão, mas
num é pra ires contar a ninguém!» (p.49)
[…]
«Pessoalmente
tenho paixão pela cor amarela, especialmente essa assim bem torrada: ela me
deixa a cabeça vazia, em calmaria, e eu gosto de ter a cabeça assim vazia pro
vento passar nela e eu estar a pensar um grande nada, minhas liberdades de
ficar quieto aqui dentro – na cabeça das estórias, e ficar a rir tipo bêbado,
riso das alegrias maiores, rir nada de nada, tipo os ndengues, faz conta um
gajo tá sentado no muro sem pressas de ir a nenhum lado.
E
rir só, a cabeça cheia dos vazios…»(p. 52)
[...]
«Muadiê:
o que eu li, eu li: Meus livros antigos, outra minha vida, antes das bebidas e
das miúdas, antes do estatuto, o que eu li foram minhas outras vidas
enriquecidas nas ondas das palavras. Outras vidas?, está tudo lá, nos livros,
tou ta pôr, incendiadas imaginações que tomavam conta de mim, nunca escrevi
poesia: fui! »(p. 106)


1 comentário:
Entendo-te tão bem em relação aos livros... OndjaKy é uma excelente escolha...
Uma boa semana, minha Amiga.
Um beijo.
Enviar um comentário