quarta-feira, 7 de junho de 2017

Poesia ortónima pessoana




ALGURES NO TEMPO ido,
Num s'paço já esquecido,
Tive, guardada não sei
Onde, nem se inda a terei,
Uma pequena porção
De ser feliz sem razão.

É uma espécie de fermento
Que se usa no pensamento
Para fazer bolo doce.
Com uma pequena dose
Consegue-se o que se quer
O pior de tudo é viver.

Uma mão-cheia é bastante
Para aproveitar o instante
E dourá-lo de elegia.
Usa-se com água fria.
Outras é com água quente
(Lágrimas). É indiferente.

30.1.1931                                              
 (reprodução, trabalho meu, óleo sobre tela, 80X80cm)



Fernando Pessoa (2006:p.16), Poesia/1931-1935 e não datada, Assírio & Alvim.

Informação em "Nota Prévia" do referido volume:
"Reúnem-se neste terceiro volume os poemas em português, datados entre 1931 e 1935, bem como os poemas não datados, não atribuídos por Fernando Pessoa a nenhum dos seus heterónimos ou personalidades literárias. [...]"



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