terça-feira, 27 de junho de 2017

Reflexos





a existência evadiu-se
do corpo natural que era.
sustém-se no espaço em branco
entre linhas tortas e delira. e tudo é brando
até ao cerne de tudo. mesmo da respiração
se dirá agora - melodia.

como Antero estendo os braços:
“adoro e aspiro unicamente à liberdade” *

é sempre assim, quando
um inusitado desvendamento
banha como vaga de limpidez
o olhar...
e tudo que é excessivo eu excluo,
eu repudio. a demasia arranca o brilho
ao puro coração das coisas cristalinas.
e eu sofro.

é sempre assim
quando o querer não se inclina
segundo as obliquidades
e os ângulos agudos de insanos vates .

deve ser da própria condição das mãos, 
das palavras
esvoaçarem assim em absoluta 
emancipação.
gosto de as ver indomadas,
andorinhas reais furtadas
à hediondez de remotos céus
desabitados.



*Do soneto Evolução, Antero de Quental.




 (pintura de minha autoria. Óleo sobre tela, 80X60)