segunda-feira, 26 de junho de 2017

S. João



As festas dos santos populares ainda me chamam porque são momentos em que é possível o reencontro com um passado, a trazer-nos à lembrança, tradições e costumes ancestrais que queremos preservar. Não fossem estas revisitações esporádicas e já se teriam perdido nas malhas do tempo. São os trajes, as danças e os cantares do nosso folclore, as bandas de música, os "Zés Pereiras" ou os desengonçados gigantones... Um património cultural rico de que não nos podemos alhear sob pena de condenarmos as gerações vindouras a um desconhecimento triste das raízes comuns que sustentam a nossa identidade.

Há uns anos que, na noite de São João, desço de casa até à “Ponte”, só para ver a chegada do magnifico desfile etnográfico junto da capela de S. João, lugar onde o mar de multidão desagua como onda a desfazer-se na praia, entre a alegria feita de ritmos, sons, e ecos misturados numa orquestra sem maestro, e os cheiros a suor e manjerico, cidreira, alho porro e, este ano, até a fétida arruda, (aguenta-se o mal que cheira pelo bem que faz, pois, como se sabe, afasta de nós o mau-olhado, seja lá isso o que for).
Os bombos eletrizantes entram-nos no corpo, no peito como se em casa sua e ribombam, sacudindo-nos violentamente o coração como se quisessem pará-lo. Não gosto e contudo, vendo tão molhadas de suor as camisas dos "Zés", pondero e tolero! Os “cabeçudos” são engraçados. Alguns, ainda antes de terminar o desfile, ficam num estado “que nem podem” e pousam a cabeça no chão. É quando vemos como é pouco o corpo para tanta cabeça.

Mas, são as danças dos grupos folclóricos o que mais gosto, o que sempre me encantou. Nunca percebi bem a leveza daqueles corpos, nem sempre leves, das mulheres e dos homens, rodando de braços no ar, tão cúmplices nas voltas e reviravoltas do vira e do malhão. Aprendi com uma das minhas pequenas alunas, um dia, os passos certos do vira. Mas falta-me o treino e o jeito e só por isso, às vezes, sinto-me uma minhota "amputada".
A beleza e o colorido dos trajos, a alegria dos cantares, as bocas onde nascem sorrisos fáceis, a frescura das vozes completam o cenário. Emociono-me! Não, não é da idade! Acontece-me desde criança, desde o tempo do preto e branco, ao domingo à tarde na televisão, em "Danças e Cantares" (programa de folclore apresentado por Pedro Homem de Melo). Já nesse tempo eu parava de brincar para me deixar tomar por essa coisa mágica, tão estranha quanto íntima, a que hoje chamo, serenamente - a minha doce Portugalidade.

1 comentário:

Graça Sampaio disse...

Doce descrição, Lídia. Gostei de rever tudo isso. (Filha, neta,bisneta, sobrinha e etc. de minhotos de Barcelos...)

Beijinho.