As festas dos santos populares ainda me chamam porque
são momentos em que é possível o reencontro com um passado, a trazer-nos à lembrança, tradições e costumes ancestrais que queremos preservar. Não fossem estas
revisitações esporádicas e já se teriam perdido nas malhas do tempo. São os trajes,
as danças e os cantares do nosso folclore, as bandas de música, os "Zés Pereiras"
ou os desengonçados gigantones... Um património cultural rico de que não nos
podemos alhear sob pena de condenarmos as gerações vindouras a um
desconhecimento triste das raízes comuns que sustentam a nossa identidade.
Há uns anos que, na noite de São João, desço de casa
até à “Ponte”, só para ver a chegada do magnifico desfile etnográfico junto da
capela de S. João, lugar onde o mar de multidão desagua como onda a desfazer-se
na praia, entre a alegria feita de ritmos, sons, e ecos misturados numa
orquestra sem maestro, e os cheiros a suor e manjerico, cidreira, alho porro e,
este ano, até a fétida arruda, (aguenta-se o mal que cheira pelo bem que faz,
pois, como se sabe, afasta de nós o mau-olhado, seja lá isso o que for).
Os bombos eletrizantes entram-nos no corpo, no peito
como se em casa sua e ribombam, sacudindo-nos violentamente o coração como se
quisessem pará-lo. Não gosto e contudo, vendo tão molhadas de suor as camisas dos "Zés", pondero e tolero! Os “cabeçudos” são engraçados. Alguns, ainda
antes de terminar o desfile, ficam num estado “que nem podem” e pousam a cabeça
no chão. É quando vemos como é pouco o corpo para tanta cabeça.
Mas, são as danças dos grupos folclóricos o que mais
gosto, o que sempre me encantou. Nunca percebi bem a leveza daqueles corpos,
nem sempre leves, das mulheres e dos homens, rodando de braços no ar, tão
cúmplices nas voltas e reviravoltas do vira e do malhão. Aprendi com uma das
minhas pequenas alunas, um dia, os passos certos do vira. Mas falta-me o treino
e o jeito e só por isso, às vezes, sinto-me uma minhota "amputada".
A beleza e o colorido dos trajos, a alegria dos
cantares, as bocas onde nascem sorrisos fáceis, a frescura das vozes completam
o cenário. Emociono-me! Não, não é da idade! Acontece-me desde criança, desde o
tempo do preto e branco, ao domingo à tarde na televisão, em "Danças e
Cantares" (programa de folclore apresentado por Pedro Homem de Melo). Já
nesse tempo eu parava de brincar para me deixar tomar por essa coisa mágica,
tão estranha quanto íntima, a que hoje chamo, serenamente - a minha doce
Portugalidade.



1 comentário:
Doce descrição, Lídia. Gostei de rever tudo isso. (Filha, neta,bisneta, sobrinha e etc. de minhotos de Barcelos...)
Beijinho.
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