domingo, 4 de junho de 2017

Sardinha


(sardinha/guitarra portuguesa. s/.ind. autoria)


Não a vi chegar. Nem sei se chegou. Apareceu.
Já não têm sardinhas? – perguntou sem se dirigir a ninguém em particular, com um frenesim na voz que a fazia tropeçar nas palavras. Olhou-me interrogativa. - Não sei dizer-lhe - respondi eu, que já estava de senha na mão para lá de muito tempo e começava a irritar-me com a demora.
Ela, em passo de lavandisca apressada, dirigiu-se ao lugar da bancada onde é costume estarem as sardinhas. Regressou colocando-se ao meu lado, abanando a cabeça, da direita para a esquerda e vice-versa. - Parece impossível. Já não têm sardinhas. A esta hora e já não há sardinhas! Sabe, é que comprei aqui umas sardinhas na semana passada… Nem queira saber, eram tão boas, tão boas! Foram a três euro e meio, estavam em promoção… calou-se repentinamente olhando-me de esguelha como a medir a minha atenção. Eu ouvia-a, vigiando o “ecrã da vez”, à espera do H143 (peixe arranjado). - Elas não eram grandes, lá isso não - continuou - eram assim, mais ou menos assim: colocava os dois dedos indicadores em paralelo deixando entre eles o espaço de uma sardinha (que não havia). Falava pelos cotovelos e repetia-se, repetia-se, repetia-se…
Talvez perguntando a uma funcionária…(e baixinho: talvez tenha no porão um cardume extraviado) - sugeri, percebendo que a mulher não se conformava com o desaparecimento das sardinhas, embora na bancada houvesse muitas e variadas espécies de peixes, com preços para todas as carteiras.  

Fui deixando de ouvir.
Perguntava a mim própria o que me faltaria para não entender aquele desmesurado entusiasmo por umas tristes sardinhas, nem grandes nem pequenas, mais ou menos assim, (ajeito os indicadores, está a ver?). 

Não desprezaria aprender o caminho para este entusiasmo pelas coisas mais vulgares do quotidiano que, embora parecendo pequenas são, para certas pessoas, suficientemente grandes para lhes preencher a vida e fazê-las vibrar como se, extasiadas, assistissem a um concerto de Schubert ou a uma ópera de Verdi.






1 comentário:

Graça Pires disse...

A cada um o seu gosto, minha querida Amiga. Mas a história está bem contada e saí dela com vontade de ouvir Schubert, o meu favorito...
Um beijo.