(sardinha/guitarra portuguesa. s/.ind. autoria)
Não
a vi chegar. Nem sei se chegou. Apareceu.
Já não têm sardinhas? – perguntou sem se dirigir a ninguém
em particular, com um frenesim na voz que a fazia tropeçar nas palavras. Olhou-me
interrogativa. - Não sei dizer-lhe -
respondi eu, que já estava de senha na mão para lá de muito tempo e começava a irritar-me
com a demora.
Ela,
em passo de lavandisca apressada, dirigiu-se ao lugar da bancada onde é costume
estarem as sardinhas. Regressou colocando-se ao meu lado, abanando a cabeça, da direita para a esquerda e vice-versa. - Parece impossível. Já não têm sardinhas. A
esta hora e já não há sardinhas! Sabe, é que comprei aqui umas sardinhas na
semana passada… Nem queira saber, eram tão boas, tão boas! Foram a três euro e
meio, estavam em promoção… calou-se repentinamente olhando-me de esguelha
como a medir a minha atenção. Eu ouvia-a, vigiando o “ecrã da vez”, à espera
do H143 (peixe arranjado). - Elas não
eram grandes, lá isso não - continuou - eram
assim, mais ou menos assim: colocava os dois dedos indicadores em paralelo
deixando entre eles o espaço de uma sardinha (que não havia). Falava
pelos cotovelos e repetia-se, repetia-se, repetia-se…
Talvez perguntando a uma
funcionária…(e baixinho: talvez tenha no porão um cardume extraviado) - sugeri, percebendo
que a mulher não se conformava com o desaparecimento das sardinhas, embora na bancada
houvesse muitas e variadas espécies de peixes, com preços para todas as
carteiras.
Fui
deixando de ouvir.
Perguntava
a mim própria o que me faltaria para não entender aquele desmesurado entusiasmo
por umas tristes sardinhas, nem grandes nem pequenas, mais ou menos assim, (ajeito os indicadores, está a ver?).
Não desprezaria aprender o caminho para este entusiasmo pelas coisas mais vulgares do quotidiano que, embora parecendo pequenas são, para certas pessoas, suficientemente grandes para lhes preencher a vida e fazê-las vibrar como se, extasiadas, assistissem a um concerto de Schubert ou a uma ópera de Verdi.

1 comentário:
A cada um o seu gosto, minha querida Amiga. Mas a história está bem contada e saí dela com vontade de ouvir Schubert, o meu favorito...
Um beijo.
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