tem toda a razão. desculpe.
já falámos tempo de mais de flores?
e, claro…
flores levam logo ao
perfume da sedução,
uma pessoa sai do sério. fica à espera de outros rebentos.
desculpe. tem toda a razão.
como diz?
falamos, há tempo de
mais, de passarinhos
e manhãs claras e azuis?
perdão. que distração... de
passarinhos.
logo de passarinhos...
pois... periclitantes,
pequeninos, indefesos
que cabeça a minha. a
meter-lhe bandos de passarinhos
na imaginação.
não devia, claro. olhem só: manhãs claras
e poesia!
que heresia. parece mesmo cantata,
flirt, coisa de namoro leviano...
tem toda a razão.
eu não devia… perdão.
é preciso muito cuidado
com as palavras
para que não sejam
mal utilizadas.
onde é que já se viu,
falar de azul
sem oferecer uma nesga de
céu [da boca]
um beijo, uma
dentadinha a morder o lábio
ou o desejo
tem toda a razão…
melhor falássemos de
cebolas, de alhos roxos…
sei lá, trazer ao diálogo um
paté de atum,
chocos com tinta,
peixe frito, molho de escabeche
uma coisa assim, que
atenuasse o odor enjoativo das flores
e do azul e dos
passarinhos e dos poemas líricos de outrora.
desculpe, tem toda a
razão. o que era antes não é agora.
é a língua…
como diz?
ah, perdão. não era minha intenção
trazer à baila a palavra língua.
é uma palavra
lasciva, sem pudor?
e eu a achar que a língua era
a voz da alma. que horror!
que cabeça de vento, a
minha.
perdão. tem toda a razão.
…

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