domingo, 20 de agosto de 2017

(des)Conversando





tem toda a razão. desculpe.
já falámos tempo de mais de flores?
e, claro…
flores levam logo ao perfume da sedução,
uma pessoa sai do sério. fica à espera de outros rebentos.
desculpe. tem toda a razão.

como diz?
falamos, há tempo de mais, de passarinhos
e manhãs claras e azuis?
perdão. que distração... de passarinhos.
logo de passarinhos...
pois... periclitantes, pequeninos, indefesos
que cabeça a minha. a meter-lhe bandos de passarinhos
na imaginação.

não devia, claro. olhem só: manhãs claras e poesia!
que heresia. parece mesmo cantata, flirt, coisa de namoro leviano...
tem toda a razão. eu não devia… perdão.
é preciso muito cuidado com as palavras
para que não sejam mal utilizadas.
onde é que já se viu, falar de azul
sem oferecer uma nesga de céu [da boca]
um beijo, uma dentadinha a morder o lábio
ou o desejo
tem toda a razão…

melhor falássemos de cebolas, de alhos roxos…
sei lá, trazer ao diálogo um paté de atum,
chocos com tinta, peixe frito, molho de escabeche
uma coisa assim, que atenuasse o odor enjoativo das flores
e do azul e dos passarinhos e dos poemas líricos de outrora.
desculpe, tem toda a razão. o que era antes não é agora.
é a língua…  
como diz?
ah, perdão. não era minha intenção
trazer à baila a palavra língua. 
é uma palavra lasciva, sem pudor?
e eu a achar que a língua era 
a voz da alma. que horror!
que cabeça de vento, a minha.

perdão. tem toda a razão.  








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