(I)
Abandono esta estrada de palavras. O corpo
reclinado para a dança dos gestos familiares. Regressar à terra, sentir nas mãos cada
poro da terra, apaixonadamente.
(II)
De “poeta” para poeta:
De “poeta” para poeta:
- Gostava de
"enterrar" as palavras. Ficar apenas com as coisas palpáveis, libertar-me do
vício de escrever. Quanto mais se escava, maior é o
vazio. Não voltarei a publicar, de qualquer modo…
- Não tenhas medo das palavras: aqui, por exemplo, podes suprimir o
“vazio” e substituir por “dor”. É o que, na verdade, querias dizer. Quanto ao resto… (um sorriso condescendente abre-se no
meio das barbas grisalhas e o saber sobe à candura da voz),
quanto ao resto: falo com a
Olívia, mas entendo-me melhor com a Lídia. Verei o que ela tem a dizer-me sobre o
assunto.
(III)
Fiquei tanto tempo a olhar o mar daqui desta varanda
de onde não se vê o mar. O dia foi-se, sem que o embrião dessa "coisa/livro" que tem andado a espalhar folhas com inscrições vagas no vento,
trouxesse sequer um cheirinho a maresia. Fiquei a olhar os barcos, envoltos em nevoeiro. De resto, nada... quase nada: varri o terraço, reguei as flores,
estendi a roupa, retoquei a gaiola dourada na tela…
(IV)
Junto ao muro, eclodiu um ramalhete de lírios rosa. Já
ninguém vê a cal quebrada que o recobre.

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