quinta-feira, 7 de setembro de 2017

diários




(I)

      Abandono esta estrada de palavras. O corpo reclinado para a dança dos gestos familiares. Regressar à terra, sentir nas mãos cada poro da terra, apaixonadamente.

(II)

 De “poeta” para poeta:

 - Gostava de "enterrar" as palavras. Ficar apenas com as coisas palpáveis, libertar-me do vício de escrever. Quanto mais se escava, maior é o vazio. Não voltarei a publicar, de qualquer modo…
    - Não tenhas medo das palavras: aqui, por exemplo, podes suprimir o “vazio” e substituir por “dor”. É o que, na verdade, querias dizer. Quanto ao resto… (um sorriso condescendente abre-se no meio das barbas grisalhas e o saber sobe à candura da voz), quanto ao resto: falo com a Olívia, mas entendo-me melhor com a Lídia. Verei o que ela tem a dizer-me sobre o assunto.


(III)

Fiquei tanto tempo a olhar o mar daqui desta varanda de onde não se vê o mar. O dia foi-se, sem que o embrião dessa "coisa/livro" que  tem andado a espalhar folhas com inscrições vagas no vento, trouxesse sequer um cheirinho a maresia. Fiquei a olhar os barcos, envoltos em nevoeiro. De resto, nada... quase nada: varri o terraço, reguei as flores, estendi a roupa, retoquei a gaiola dourada na tela…


(IV)

Junto ao muro, eclodiu um ramalhete de lírios rosa. Já ninguém vê a cal quebrada que o recobre.










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