segunda-feira, 4 de setembro de 2017

não tarda nada



 (imagem s/ ind. autoria)

a terra extenuada parece rogar repouso
para as raízes que alberga,
subtilmente
pressente-se às mãos do vento
um dedilhar de galhos secos
a quebrarem-se contra a parede escarlate 
do entardecer. uma febre fria,
um rubor esmaecido a tingir o horizonte
e a luz  a deixar-se morrer, 
vagarosamente 
o lusco-fusco acerca-nos,
como mantilha tapa-nos os ombros
e deixa em nós uma perturbação qualquer,
indefinível.
demoramos a esfumar, a fundir 
os tons findos do dia
com os tons primeiros da noite.
desvanecimento, tontura ou desvario? pouco importa.
não tarda nada,
regressarás pelos sentidos ao cheiro do feno
ao chapéu de palha sobre as tranças
às cavaqueias em redor 
de amontoados de espigas, no centro da eira,
para desfolhar à tardinha entre cantigas:
o milho-rei, o beijo ou o abraço,
o riso ritmado da concertina
o vinho nas gargantas acesas.
não tarda nada,
todos vivos para a festa da Vida,
a alegria a fazer-se outra vez colheita.
não tarda nada.








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