(Fotografia de Rui Caria, publicada no facebook)
Li hoje,
pela manhã, numa rede social, dois textos de duas pessoas amigas, desconhecidas entre si, creio eu, que me fizeram pensar. Por vezes é no
cruzamento de ideias, à partida, distantes que descortinamos elos de aproximação capazes
de abrir clareiras no nosso entendimento sobre as "coisas" do mundo. O primeiro texto alude a uma qualquer maleita grave que silenciosamente se vai expandido por aí como um surto: […] e
não estou só a falar de abandono, da fome, da rua, do medo – diz José
Miguel Braga (conhecido professor, ator, cidadão cívica e culturalmente empenhado, cá da terra) - falo também de muitos
anónimos que nem sequer tiveram o direito a ser marginais, gente a quem o
desterro tomou conta do corpo e da vontade […] Uma tristeza que desce,um não saber como funcionam essas coisas do dever e da circunstância. [...]
O segundo texto assinado por Rui Caria, fotojornalista, com o qual tive o privilégio de colaborar, numa publicação sua – 50 fotografias - exprimia-se deste modo:
Em Outubro aconteceu-me
ter a sorte de poder fazer algo que pode demorar
cerca de 2 anos a ser autorizado. Embarquei num navio da Marinha Portuguesa
para fazer a cobertura integral da missão Triton da agência Frontex. Hoje,
apesar de ter aprendido tanto, sei menos do que pensava que sabia antes de ir;
perdi a diferença entre migrantes, emigrantes e refugiados. Fui testemunha da
humanidade e da desumanidade. As expressões nos retratos que tirei, fizeram-me
aprender que salvar pessoas é a única coisa que importa, mesmo quando é incerto
o seu destino.
Os comentários que já li sobre estes movimentos de pessoas
à deriva no mediterrâneo, são barómetros de ignorância preocupantes de gente
que tem direito de voto. Aquilo que ali se passa é toda a mentira do mundo. […]
Senti-me
"espicaçada" por estas palavras. Dei comigo a repetir maquinalmente: a única coisa que importa é salvar pessoas,
salvar pessoas… E depois, como em resposta, furtiva: não saber
como funcionam essas coisas do dever e da circunstância. A tristeza apareceu-me diante dos olhos, altiva, quase burguesa, tudo nela me causou incómodo e aversão. (Sim, claro!... É isso mesmo: também a mim me crava os dentes, amiúde). E tudo isto, uma rotunda sem saídas: a desumanização do mundo a gerar tristeza; a tristeza, por
sua vez, móbil da apatia; a apatia, esse estado inerte, (doloroso mas também cómodo) que
consente, mais ou menos enfadado, a desumanidade que desmoraliza e apequena o mundo, com todos nós dentro dele.
Há tantas
pessoas para salvar e outras tantas, potenciais salvadoras, que se
deixam consumir em lume brando sem saberem “como
funcionam essas coisas do dever e da circunstância”. Aparentemente, o mundo
não terá conserto porque poucos são os braços e as vontades que sobram para o consertar. De circunstância
em circunstância, de tristeza em tristeza, de indiferença em indiferença, vamos
deixando que as metástases da superficialidade e da futilidade se afundem no terreno cada vez mais frouxo do
humano, como um mal incurável sem que o seja, realmente, quero crer.

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