domingo, 3 de dezembro de 2017

Rumor


(pintura Christine Ellger)

outrora, quando as imagens perdiam a cor
no cérebro eu dizia-te:
hoje há flores a morrer dentro de mim.
e tu não sabias por que to dizia
nem sabias como travar
a crueldade dessa visão de pétalas decepadas
no ermo do meu coração.

era o crocitar acre dos corvos
silhuetas negras em turbilhão sobre a
hipersensibilidade da linguagem.
hoje, quando no cérebro,
os cheiros da beira-mar, dos pinheiros
das giestas, das searas...
já não quero localizar o coração.
já nada é posse, apenas forma
a coincidência da forma com os dedos
até ao último degrau da harmonia.
trilam os lábios como se pássaros,
uma onda cromática alastra no peito,
paisagem diurna semelhante à brisa
nas papoilas vermelhas, ao vento
nas pás laboriosas do moinho.

o caminho para o poema, poeira branca
pedras gastas, cristais quebrados, corais
ou astros das órbitas afastados, húmus, 
a estrada que me atravessa o corpo
e digo-te, humildemente:
hoje há flores a nascer dentro de mim.
 




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