(pintura Christine Ellger)
outrora, quando as imagens perdiam a
cor
no cérebro eu dizia-te:
hoje há
flores a morrer dentro de mim.
e tu não sabias por que to dizia
nem sabias como travar
a crueldade dessa visão de pétalas
decepadas
no ermo do meu coração.
era o crocitar acre dos corvos
silhuetas negras em turbilhão sobre
a
hipersensibilidade da linguagem.
hoje, quando no cérebro,
os cheiros da beira-mar, dos pinheiros
das giestas, das searas...
já não quero localizar o coração.
já nada é posse, apenas forma
a coincidência da forma com os dedos
até ao último degrau da harmonia.
trilam os lábios como se pássaros,
uma onda cromática alastra no
peito,
paisagem diurna semelhante à brisa
nas papoilas vermelhas, ao vento
nas pás laboriosas do moinho.
o caminho para o poema, poeira
branca
pedras gastas, cristais quebrados,
corais
ou astros das órbitas afastados, húmus,
a estrada que me atravessa o corpo
e digo-te, humildemente:
hoje há
flores a nascer dentro de mim.

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