(Pintura a Óleo Sobre Tela - Eduardo Mecenero)
a velhice é engraçada.
enfim, não a velhice muito
velha,
essa trucida que eu bem sei,
mas a outra, intermédia,
ainda um pouco nova,
um pouco sóbria.
nada a provar, nada a explicar,
a argumentar
nada a lamentar,
que arrependimentos há, imperdoáveis
para os deuses.
permite-se desistir das
coisas, sem dramas, esta velhice
como quem diz: está bem, leva lá a bicicleta
se isso te faz feliz. e do
verbo “fraquejar”
nem uma sombra sumida.
sabe que, se quisesse, podia
até ganhar uma batalha,
aqui e além, porém… não está
p’raí virada.
não lhe apetece, que a guerra, é certo, está perdida.
faz-lhe uma falta danada o
amarelo dos girassóis,
isso sim, dá que pensar,
da importância das velhas vitórias
e derrotas
do entusiasmo de lutas
fervorosas, da defesa apaixonada
de certas bandeiras, de
certas ideias, resta um sorriso brando.
nada há de necessidade iminente
nesta anciania, mas,
nos refegos da indiferença, umas
sobras de quereres
alimentam ainda a poesia
que quereres?!...
sei lá, um coro de anjos a entoar cânticos gregorianos;
uma luz qualquer, intensa, a alisar o pensamento
como o vento alisa a areia fina da praia;
uma flor súbita a brotar do meio do breu…
bem menor a intensidade no desejar,
todavia.
maior, muito maior a
indulgência
no recebimento do que não
deseja.

1 comentário:
É difícil envelhecer com sabedoria. É difícil que os outros entendam isso com normalidade...
O teu poema, Lídia, fez-me pensar...
Uma boa semana.
Um beijo.
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