quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Leituras



Eu passarei como uma nuvem por cima das ondas.
 Virginia Woolf.



Hoje, o Google leva-nos numa visita a Virginia Woolf, rememorando a data do seu nascimento (25/01/1882).
Sempre que me deparo com este rosto pálido, frágil, quase transparente, mergulho invariavelmente num dos livros de sua autoria, aquele que, de entre os que li, mais me impressionou, embora não o mais reconhecido pela crítica que já a aclamara anteriormente com Orlando, Mrs. Dalloway ou mesmo Rumo ao Farol. Digo mergulho e digo bem, pois trata-se de  As Ondas (1931), que li, bastante jovem ainda e, talvez por isso, tenha sido “apanhada” pela irresistível poeticidade da linguagem, mais do que pela singular construção narrativa que viria a ser classificada por Jorge Luis Borges do seguinte modo : «Não há argumento, não há conversa, não há acção...» É um livro liberto de ideias romanescas que se vai fazendo a partir do pulsar (por vezes caótico), ao minuto, ao segundo, dentro da cabeça das personagens. Assim o quis Virgínia Woolf, desde o  princípio, como aliás são disso prova as palavras do seu diário, que remontam ao período em que a escritora idealizava este projecto: «Quero eliminar todo o desperdício, todas as coisas mortas, o supérfluo: dar o momento inteiro, com tudo o que faz parte dele. Digamos que o momento é um misto de pensamento, de sensação, a voz do mar... Esse medonho assunto da narrativa realista, avançar do almoço para o jantar, é falso, irreal, meramente convencional. Porquê admitir algo na literatura que não seja poesia - até à saturação, mesmo? É isso que quero fazer em As Mariposas».  (As Mariposas seria o título originalmente escolhido, abandonado depois e substituído por As Ondas, quando Woolf se “lembrou de repente” (palavras suas) que as mariposas só voam de noite).
 Devo ter tomado consciência da singularidade desta obra, mais tarde, talvez numa segunda ou terceira leitura. Efetivamente, deparámo-nos com uma nova maneira de ver e de dar a ver a literatura. Uma narrativa sem ação, em que o tempo se concentra todo no momento presente, lugar de encontro de todos os tempos, de todos os espaços, de todas as idades das personagens. Seis vozes que não falam entre si, mas dentro de si, sempre em discurso direto, solilóquios que desaguam numa definição despretensiosa e "natural", diria eu, do humano. Há uma sétima personagem, Percival, que deambula, invisível, entre todos, como um ser fascinante que os une (o rosto único das seis faces em dispersão?) mas, ao leitor não é dado ouvir esta voz, em nenhum momento da narrativa.
Uma viagem, em nove etapas, que nos levam da infância à maturidade, da maturidade ao envelhecimento. Em paralelo, uma outra viagem se vai desenrolando: a do Sol ao longo de um dia, desde que nasce até que se põe, sobre as ondas. Uma obra que continua a interessar-me dado que, no meu horizonte, o Sol ainda não se pôs. É, sem dúvida, a minha preferida, desta autora, ainda que menos estudada que outras como a já referida, Orlando, (1928), esta sim, a obra-prima de Virginia Woolf para Jorge Luís Borges e não só para ele. Basta vermos o grande  interesse que desperta no âmbito das interartes, servindo de inspiração a muitas outras manifestações artísticas, no cinema e no teatro, por exemplo.



Fontes:
Woolf, Virgínia, As Ondas, (1931) 
Coelho, Alexandra Lucas, Ensaio - As Ondas, in C. Mil Folhas