quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Bicicleta


(Google s/ ind. autoria)
 
17…18…19…20 minutos,
exercício obrigatório!

Pedi que montassem a bicicleta
voltada para a parede das telas.
Pedalo, assim, se quiser, ao lado das raparigas
junto ao mar ou no campo de margaridas
ou, como agora, por dentro da cesta tombada
dos girassóis…pedalo, pedalo e não saio do sitio.
Nem aroma de maresia nem sol na face
nem vento no cabelo…
Nada é real neste passeio diário de fingimento.
Respiro fundo, enfadado, e aponto
o olhar à árvore do quadro mais distante,
pedalo, pedalo, pedalo...
e não chego 
a saber se os pássaros
já fizeram ninhos entre a folhagem,
não lhes escuto o canto.
pedalo, pedalo, pedalo...
Escrevo, risco, apago… volto a escrever,
exercício obrigatório! E não saio do sítio.
Falta-me o aroma da maresia,
o sol na face, o vento no cabelo,
o canto dos pássaros...
alguma coisa a que se possa chamar: realidade.



2 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Belo

Retrato perfeito de quase 10 milhões
de poetas e não poetas
e de suas bicicletas

Emília Simões disse...

Muito belo este poema!
Um beijinho.
Ailime