Somos aqui
desamparadamente
desiguais.
Da janela, se a sondamos
atinge-nos
uma vaga de solidão
e tão deserto é o poema
como o solo de janeiro que a
geada
crestou.
As vozes íntimas de sol
arrefecem
e nenhuma asa adeja
em amanhecido canto,
nenhuma andorinha
tece ninho na renda dos
beirais
e as casas quedam-se
mudas e hibernais.
Mas…[ah, uma conjunção
adversativa
mesmo a tempo de salvar
da morte certa, este poema.]
Mas – como te dizia -
contigo sou menos desigual,
aqui
contigo ouso, reinvento a
primavera
a partir de um ínfimo pezinho
de sol
e sigo até que o canto inunde de cor
a geometria branca dos
campos
no inverno.
Lídia Borges (2015:p.19), Baile de Cítaras, Poética Edições.
