sábado, 27 de janeiro de 2018

Somos aqui



Somos aqui
desamparadamente
desiguais.

Da janela, se a sondamos
atinge-nos
uma vaga de solidão
e tão deserto é o poema
como o solo de janeiro que a geada
crestou.

As vozes íntimas de sol
arrefecem
e nenhuma asa adeja
em  amanhecido canto,
nenhuma andorinha
tece ninho na renda dos beirais
e as casas quedam-se
mudas e hibernais.

Mas…[ah, uma conjunção adversativa
mesmo a tempo de salvar
da morte certa, este poema.]
Mas – como te dizia -
contigo sou menos desigual, aqui
contigo ouso, reinvento a primavera
a partir de um ínfimo pezinho de sol
e sigo  até que o canto inunde de cor
a geometria branca dos campos
no inverno.

Lídia Borges (2015:p.19), Baile de Cítaras, Poética Edições.