Braga,
16:30h...
Chove.
Não, não chove. A cidade é que parece mergulhada numa nuvem londrina que me
arrefece, depois de revisitados os lugares que foram pertença e afetos.
Já não é possível percorrer uma rua sem cruzar com eles, os turistas.
Vêm em bandos. São enérgicos e alegres, querem levar a cidade toda com eles
dentro das câmaras. Contrastam com os rostos ilegíveis dos naturais.
Pronto,
também eu fui apanhada, agora mesmo, nesta mesa de café, a escrever. O homem de
chapéu branco, lá fora, empurrou a mulher de saia rodada, às flores, para junto
do emblemático logótipo d'A Brasileira - o velhote a tomar café, igual ao
velhote que toma café na minha chávena de café, e disparou. Eu e ela, a senhora
florida, lado a lado, separadas por um vidro, agora unidas para sempre dentro de uma
fotografia. Sorriu-me. O lápis suspenso dos meus dedos, apáticos. Não me
apetece sorrir, estou concentrada a escrever isto e não me apetece sorrir,
especialmente porque, dentro de mim, não encontro as ruas que foram a
cidade dentro de mim. Um sentimento de estranheza cresce, vai corroendo as
paredes do meu coração e as lembranças quedam-se em pó. Uma estranheza que me
faz pensar se esta mudança de que tomo consciência agora, que
me abala inexplicavelmente, se deu em mim própria ou na cidade. Sinto receio de não saber voltar a
casa, ao mesmo tempo que uma indescritível urgência de voltar a casa me tolhe
todos os gestos e me agride. De repente, na pele, aquela inquietação igual à que
experimento quando, num país que não é o meu, sei que tenho de entrar num avião
para regressar. E só quando este toca o solo materno me sinto segura. Não tenho medo de viajar de avião, tenho medo de não saber regressar a casa. Mas não, desta vez não será necessário apanhar um avião. Moro já ali, tão longe...
Escrevo
a tarde, ainda. Escuto-a entre bandejas, o tilintar de chávenas, moedas,
vozes... Os
turistas desapareceram, rua abaixo.
Tenho
de sair, ir embora, deixar morrer esta sensação de perda, dentro de mim.