quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Olhares



Braga, 16:30h...
Chove. Não, não chove. A cidade é que parece mergulhada numa nuvem londrina que me arrefece, depois de revisitados os lugares que foram pertença e afetos.  
Já não é possível percorrer uma rua sem cruzar com eles, os turistas. Vêm em bandos. São enérgicos e alegres, querem levar a cidade toda com eles dentro das câmaras. Contrastam com os rostos ilegíveis dos naturais. 

Pronto, também eu fui apanhada, agora mesmo, nesta mesa de café, a escrever. O homem de chapéu branco, lá fora, empurrou a mulher de saia rodada, às flores, para junto do emblemático logótipo d'A Brasileira - o velhote a tomar café, igual ao velhote que toma café na minha chávena de café, e disparou. Eu e ela, a senhora florida, lado a lado, separadas por um vidro, agora unidas para sempre dentro de uma fotografia. Sorriu-me. O lápis suspenso dos meus dedos, apáticos. Não me apetece sorrir, estou concentrada a escrever isto e não me apetece sorrir, especialmente porque, dentro de mim, não encontro as ruas que foram a cidade dentro de mim. Um sentimento de estranheza cresce, vai corroendo as paredes do meu coração e as lembranças quedam-se em pó. Uma estranheza que me faz pensar se esta mudança de que tomo consciência agora, que me abala inexplicavelmente, se deu em mim própria ou na cidade. Sinto receio de não saber voltar a casa, ao mesmo tempo que uma indescritível urgência de voltar a casa me tolhe todos os gestos e me agride. De repente, na pele, aquela inquietação igual à que experimento quando, num país que não é o meu, sei que tenho de entrar num avião para regressar. E só quando este toca o solo materno me sinto segura. Não tenho medo de viajar de avião, tenho medo de não saber regressar a casa. Mas não, desta vez não será necessário apanhar um avião. Moro já ali, tão longe...
Escrevo a tarde, ainda. Escuto-a  entre bandejas, o tilintar de chávenas, moedas, vozes... Os turistas desapareceram, rua abaixo. 
Tenho de sair, ir embora, deixar morrer esta sensação de perda, dentro de mim.