quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Olhares I



                                                                                                                                                                         (Jardim de Santa Bárbara-Braga)

Braga, 9:15h
O Sol brilha. Dissipou-se a nuvem londrina que cobria a cidade e ficou à vista o colorido fantástico que os jardins hão de ter.
Recebo, com alguma surpresa, uma notícia de última hora: Portugal foi eleito pelos deuses o “cantinho do céu” na terra. Portugal, um hotel de cinco estrelas com varandas viradas para o mar, os portugueses, aqueles a quem quero dar voz, todos empregados na área da hotelaria, restauração e afins, (os que não querem, partem. Que importa?). Os que ficam trabalham pela comida - salário mínimo (máximo). No "cantinho do céu" somos gente feliz (com lágrimas, diria João de Melo, mas agora não quero ouvi-lo). Não há guerras, no "cantinho do céu".  Há paz. Ghouta, Líbia, Sudão, Afganistão, Shade, Somália e tantos outros palcos de conflito são lugares longínquos, os ecos do sofrimento e da crueldade são distantes e vagos. Dissipam-se, como a nuvem londrina, ao entrarem no "cantinho do céu". Há que ter a humildade de nos darmos por privilegiados com o que nos coube, aquando da distribuição dos espaços terrestres aos homens.
 Os bombardeamentos acontecem silenciosamente, como num filme mudo, lá longe, tão longe!… Tão dentro de mim. Tenho medo de não saber regressar a casa, ao meu abrigo-umbigo, tão perto, já ali… fora de mim!

***

O estado de alma de qualquer pessoa é naturalmente condicionado por quanto se passa à sua volta a cada momento, pela consciência que tem ou não tem do que a rodeia, pelo modo de olhar que lhe é intrínseco,  pela capacidade de observação e sentido crítico de que dispõe... 
Se há estratégias para não se atingirem níveis de contaminação exagerados? Há, sim. Uma delas, pelo menos para mim, é escrever. Escrever é (também) dar som e forma ao silêncio que corrói, por dentro. É mais fácil lidar com os "fantasmas", trazendo-os à luz do dia. Não tenho medo dos meus. Sugo-lhes a invisibilidade até à última gota. Dispo-os. Fogem a sete pés.
 Pedagogias?!... Deixei-me disso, pelo menos, enquanto intenção preconcebida.