quinta-feira, 31 de maio de 2018

Cão de guarda


           Mal conheço esses vizinhos, mas o cão de guarda que têm preso à entrada da casa, chora compulsivamente, a qualquer hora. Dias há, em que o seu lamento me cai como pedra no fundo do coração. E se mitos antigos me vêm reabilitar o imaginário, não esses os que mais me inquietam, por agora.


De que dor de cão
se queixa o infeliz animal?
O que ou quem
lhe fará tanto mal?

Seu uivo, 
lâmina a matar a paz
que o dia, 
no acordar da hora, prometia.

Diacho do bicho...Parece gente!
E chora.

Que sabemos nós, humanos,
das caninas dores caladas, (ou não)
de quem se guarda,
noite e dia, na solidão?

Que funda tristeza  lhe cinge a trela
e lhe azeda, na gamela, 
a ração?

Que sabemos da razão 
que lhe sustenta o queixume,
pedra cega arremessada
contra a vidraça fechada.

Quem sabe, 
tenha lido no vento
as mágoas, o sofrimento
de um mundo em turbação
e sejam seus tristes latidos
os lamentos comovidos
de um cão de adivinhação.