Mal conheço esses
vizinhos, mas o cão de guarda que têm preso à entrada da casa, chora
compulsivamente, a qualquer hora. Dias há, em que o seu lamento me cai como
pedra no fundo do coração. E se mitos antigos me vêm reabilitar o imaginário, não
esses os que mais me inquietam, por agora.
De que dor de cão
se queixa o infeliz animal?
O que ou quem
lhe fará tanto mal?
Seu uivo,
lâmina a matar a paz
lâmina a matar a paz
que o dia,
no acordar da hora, prometia.
no acordar da hora, prometia.
Diacho do bicho...Parece gente!
E chora.
Que sabemos nós, humanos,
das caninas dores caladas, (ou não)
de quem se guarda,
noite e dia, na solidão?
noite e dia, na solidão?
Que funda tristeza lhe cinge a trela
e lhe azeda, na gamela,
a ração?
Que sabemos da razão
que lhe sustenta o queixume,
pedra cega arremessada
contra a vidraça fechada.
Quem sabe,
tenha lido no vento
tenha lido no vento
as mágoas, o sofrimento
de um mundo em turbação
e sejam seus tristes latidos
os lamentos comovidos
de um cão de adivinhação.
