domingo, 15 de julho de 2018

Hera



De início, uma fina grinalda
a coroar o muro.
Depois, deu em alastrar vorazmente,
apoderou-se de espaços alheios,
escureceu, alargou, robusteceu, 
restringindo em redor a respiração.
Serviu de morada a todo o tipo de bichos,
voadores, andadores, rastejantes.
Em dias de indigência,
foi liana de salvação para o poema
que com firmeza se agarrava
às folhas lustrosas e recortadas
em forma de coração,
caprichosamente.

Foi trucidada esta manhã,
serra viril, em punho firme,
a hera, haste a haste, arrancada
às pedras esmaecidas e sepultadas.
Nu, o velho muro
aparece agora livre da cortina de sombras
que o invadiu e transfigurou.
Visto assim,
na sua forma irregular e rugosa
cheio de naturalidade e altivez
deixa sérias interrogações
nos olhos
desconfiados dos gatos.

Nos meus,
profundo défice de verde.