quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A Oriente

 The Tea - Mary Cassatt (879-1880)


Escrevi para Maria Ondina Braga, o dia todo. Estive "fora". Mesmo nos momentos em que os dedos se ocupavam noutros afazeres que não a dança das teclas, escrevi para Ondina. E assim, eu, que nunca antes estivera no Oriente, acabei a tarde a tomar chá com Ester, no exíguo quarto, na casa-das-professoras do colégio de raparigas onde ela lecionou, num longínquo Nocturno em Macau. Aquela osga hirta na parede, impressionou-me, mas percebi que era discreta o bastante para não se fazer notar durante todo o ritual do chá. Em cima da mesa dos livros, uma carta escrita em papel de arroz, aberta e nunca lida. Apenas o perfume dela respirado até aos confins da alma. 
Hoje, antes do Sol se pôr, revelarei a Ester a devoção que Lu Si-Yuan lhe dedica, amorosamente, entre pétalas e ideogramas cuidadosamente pintados, em baixo relevo, a tinta-nanquim. 


Nunca me sinto só com a minha solidão. Ela dá-me sempre tanto  que fazer. Desvenda [me].