domingo, 30 de setembro de 2018

Esperas

   
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    Depois, os silêncios abandonam os poemas e vêm existir solidamente no mundo real, ao nosso lado. São brancos, fundos e frios. Um branco pálido a confundir-se  com o das paredes e dos tetos que os aprisionam. Tão nítidos que permitem distinguir, sobre a pele, finas raízes volantes, aranhas desengonçadas que se deslocam do canto do olho direito para o canto do olho esquerdo, e se despenham como mortas num espaço indefinido, invisível, quando um mínimo movimento da cabeça deixa de ser praticável. E desaparecem do campo de visão para sempre, no momento exato em que outras iguais às primeiras, iniciam o mesmo percurso, da direita para a esquerda, invariavelmente e, invariavelmente, se dissipam no mesmo buraco sem fundo, do lado do coração. E pode-se ficar assim, a sós com estas estranhas figurinhas, tempo sem fim, sem se perceber ao certo o que querem de nós. Demora uma eternidade até que algum braço, de bata branca, rode o manípulo da porta e entre, quebrando o silêncio, decidido a acabar com o filme mudo e a espalhar palavras difíceis na tela, da qual se ausentaram repentinamente todas as aranhas.  
   

    Não foi necessário contar-lhe nada.  Há uns dias que  me tem debaixo de olho, discretamente, como se pudesse o azul invasivo dos seus olhos substituir o analgésico de seis em seis horas e amenizar as esperas.