terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lendas de uma só sílaba


August Hagborg

Naquele tempo, as pessoas iam caminhando,
pequenas, para o lado de dentro.
Estavam cheias de incompetências técnicas
para a Vida que era.

Nos homens,
tantos deles incrustados de soberba e saibro,
raros, os vestígios tácteis de gente.
Careciam de raízes, de barro, de água, de sol.

Alguns ficavam ainda de pé para as palavras
como árvores ante a gula do fogo.
Deixavam-se atravessar por rios turvos
E ventos de todas as idades.
As harpas, arpões.

Estremeciam.
E depositavam os sonhos,
lendas de uma só sílaba,
no solo infecundo da civilização.
Outros nem isso!

Os vazios de uns cresciam,
como frutos exóticos
para as bocas sem flores de outros.