sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Manuel António Pina (18 de novembro 1943 -19 de outubro 2012)


Não o sonho

Talvez sejas a breve 
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina, in Atropelamento e Fuga

1 comentário:

Graça Pires disse...

Tão bom ler aqui Manuel António Pina, minha querida Amiga Lídia. Gosto muito dele. E de ti também.
Uma boa semana.
Um beijo.