De: A Vida é Bela / Benigni
Quando vejo alguém escrever como eu, com
o "meu" jeito, as “minhas” palavras, as minhas visões, não fico triste nem
alegre; não me sinto insultada nem elogiada nem louvada. Vem-me à memória, de
imediato, uma reflexão de Jorge Luís Borges: Eu não existo. Eu sou todos os lugares que conheci, todas as pessoas
que amei, todos os livros que li, todos os filmes que vi. Não há como escapar à influência de um momento
de feliz porosidade, de encontro com um gesto, um som, uma imagem, uma palavra,
“coisas” que entram no nosso coração através de uma porta inexplicavelmente aberta
sobre o instante. Não há como escapar, por onde escapar e ainda bem. De outro
modo, sem nos deixarmos marcar voluntariamente por essas manifestações estético-sensoriais,
como realizar o sonho de aprender a ler de cor o Bem e o Mal, a Alegria e a Tristeza,
o Medo e a Coragem, a Infância, a Morte, o Silêncio, a primeira Palavra?
As imagens do holocausto, trazidas por filmes
como A Vida é Bela, (Benigni) ou “O Pianista”, (Roman Polanski), por exemplo, ou pelo livro “Se isto é um Homem” (Primo Levi), fazem-me repudiar
veementemente, hoje, o teor de ideais emergentes consanguíneos aos que
sustentaram e sustentam já, de novo, pelo mundo fora, o horror, a iniquidade, a bestialidade
(im)pura dos que se vão desumanizando. Por outro lado, ainda danço às vezes à chuva com Fred
Astaire e quero ser Wang Fô do conto de Marguerite Yourcenar, Laura dos poemas de Petrarca e defendo “D. Quixote” com
unhas e dentes e rio deliciada com Charlie Chaplin e arrepio-me na presença de
um qualquer inseto negro e patudo, por causa da Metamorfose, (Kafka) e comovo-me com os Nocturnos de Chopin e, quando me vi pela primeira vez diante de Guernica,(Picasso), chorei convulsivamente,
e encho-me de angústia nas páginas de Ensaio
sobre a cegueira (Saramago) e inquieto-me dentro dos poemas de Herberto e sou
feliz nos olhares sábios de Manoel de Barros…
Como M. António Pina, reconheço que a
minha poesia está cheia de palavras e
imagens de outros. Digo, então, a quem me “copia” que não a mim copia, mas a
todos aqueles que com suas palavras, seus gestos, suas imagens, suas composições
musicais, me ajudaram a sonhar o sonho de “aprender de cor” lugares indefinidos, por vezes,
incómodos, desconfortáveis, por vezes, serenos e belos, de onde não quero sair. A todos eles sou
grata pelas páginas que me ditaram. Perdoem-me os erros (no ditado). Neles me vislumbro.
Porque fui escolhida por uns e não por
outros? Porque escolhi uns e não outros? Isso continua encoberto no espaço
insondável do mistério e da natureza.
****
Lídia Borges (Outubro 2018)
Título: José Saramago

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