quinta-feira, 18 de outubro de 2018

"Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente o são."


De: A Vida é Bela / Benigni

Quando vejo alguém escrever como eu, com o "meu" jeito, as “minhas” palavras, as minhas visões, não fico triste nem alegre; não me sinto insultada nem elogiada nem louvada. Vem-me à memória, de imediato, uma reflexão de Jorge Luís Borges: Eu não existo. Eu sou todos os lugares que conheci, todas as pessoas que amei, todos os livros que li, todos os filmes que vi.  Não há como escapar à influência de um momento de feliz porosidade, de encontro com um gesto, um som, uma imagem, uma palavra, “coisas” que entram no nosso coração através de uma porta inexplicavelmente aberta sobre o instante. Não há como escapar, por onde escapar e ainda bem. De outro modo, sem nos deixarmos marcar voluntariamente por essas manifestações estético-sensoriais, como realizar o sonho de aprender a ler de cor o Bem e o Mal, a Alegria e a Tristeza, o Medo e a Coragem, a Infância, a Morte, o Silêncio, a primeira Palavra?
 As imagens do holocausto, trazidas por filmes como A Vida é Bela, (Benigni) ou “O Pianista”, (Roman Polanski), por exemplo, ou pelo livro “Se isto é um Homem” (Primo Levi), fazem-me repudiar veementemente, hoje, o teor de ideais emergentes consanguíneos aos que sustentaram e sustentam já, de novo, pelo mundo fora, o horror, a iniquidade, a bestialidade (im)pura dos que se vão desumanizando. Por outro lado, ainda danço às vezes à chuva com Fred Astaire e quero ser Wang Fô do conto de Marguerite Yourcenar, Laura dos poemas de Petrarca e defendo “D. Quixote” com unhas e dentes e rio deliciada com Charlie Chaplin e arrepio-me na presença de um qualquer inseto negro e patudo, por causa da Metamorfose, (Kafka) e comovo-me com os Nocturnos de Chopin e, quando me vi pela primeira vez diante de Guernica,(Picasso), chorei convulsivamente, e encho-me de angústia nas páginas de Ensaio sobre a cegueira (Saramago) e inquieto-me dentro dos poemas de Herberto e sou feliz nos olhares sábios de Manoel de Barros…
Como M. António Pina, reconheço que a minha poesia está cheia de palavras e imagens de outros. Digo, então, a quem me “copia” que não a mim copia, mas a todos aqueles que com suas palavras, seus gestos, suas imagens, suas composições musicais, me ajudaram a sonhar o sonho de “aprender de cor” lugares indefinidos, por vezes, incómodos, desconfortáveis, por vezes, serenos e belos, de onde não quero sair. A todos eles sou grata pelas páginas que me ditaram. Perdoem-me os erros (no ditado). Neles me vislumbro. 

Porque fui escolhida por uns e não por outros? Porque escolhi uns e não outros? Isso continua encoberto no espaço insondável do mistério e da natureza.
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Lídia Borges (Outubro 2018) 

Título: José Saramago 



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